Estudo UFMG: atuação de profissionais da saúde e educação é fundamental para combater a hesitação vacinal
Por: Assessoria de Imprensa UFMG
O fenômeno da hesitação vacinal, caracterizado pelo adiamento ou recusa voluntária de vacinas recomendadas no sistema de saúde, tem se mostrado um desafio para as políticas nacionais da última década, sobretudo entre profissionais de saúde e da educação. Estudo desenvolvido por pesquisadores do Observatório de Pesquisa e Estudos em Vacinação (Opesv), da Escola de Enfermagem da UFMG, em parceria com a Organização Panamericana de Saúde (Opas) e a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG), identificou grande concordância entre os participantes a respeito dos benefícios da vacinação e do papel dos profissionais de saúde; alta discordância em afirmações baseadas em desinformação; e maior distribuição entre neutralidade em tópicos, como influência midiática e autonomia dos pais na decisão da vacinação.
O estudo, coordenado pela professora Fernanda Penido Matozinhos, líder do Opesv, contou com a participação de 1.132 professores, gestores de educação e profissionais de saúde da rede pública estadual, que responderam questões relacionadas a determinantes da aceitação, adiamento ou recusa vacinal. A pesquisa foi realizada por meio de questionário on-line com questões voltadas ao perfil sociodemográfico dos participantes e à percepção sobre fatores relacionados à vacinação.
“A hesitação vacinal é complexa e específica ao contexto, variando ao longo do tempo, local e vacinas. É influenciada por fatores como complacência, conveniência, confiança, contexto e comunicação. Esses fatores devem ser analisados em suas complexas e distintas intersecções, de modo a propor futuras intervenções”, explica a professora Fernanda.
No que diz respeito à compreensão dos profissionais de saúde e de educação em relação às vacinas, 98% concordaram sobre a necessidade de instrução dos pais e responsáveis; sobre a importância de médicos e enfermeiros neste processo, 96%; e sobre a política de recomendação da vacinação segundo o Programa Nacional de Imunizações, 89%.
Por outro lado, houve forte rejeição a afirmações baseadas em mitos ou desinformação, como considerar mais seguro contrair a doença do que se vacinar. Entre os participantes, 96% discordaram que é mais seguro contrair a doença do que se vacinar e da ideia de que não é mais necessário vacinar adolescentes; e 85% discordaram que vacinas contêm substâncias comprovadamente prejudiciais.
Quando perguntados sobre itens relacionados à influência da mídia, à autonomia dos pais em relação à obrigatoriedade da vacinação e à interpretação histórica sobre o papel da higiene e do saneamento no declínio das doenças, os participantes apresentaram respostas mais distribuídas entre concordância, discordância e neutralidade, refletindo a complexidade do fenômeno da hesitação vacinal.
Papel dos profissionais da saúde e educação
O estudo evidenciou que existe maior propensão à vacinação entre os indivíduos que reconhecem que a postura de governos e instituições de saúde influencia na decisão quanto à imunização. De maneira geral, verificou-se maior confiança nas vacinas entre profissionais da saúde e indivíduos com maior escolaridade e renda, enquanto professores e participantes com escolaridade intermediária demonstraram maior tendência à hesitação vacinal.
A professora Fernanda Penido explica que tanto profissionais de saúde quanto de educação atuam como fontes de informação para a população, assegurando maior adesão das pessoas às campanhas de vacinação. “A confiança institucional, incluindo no governo, nas instituições de saúde, na ciência e nos profissionais de educação, constitui um dos principais determinantes da disposição de se vacinar. Portanto, o enfrentamento da hesitação vacinal requer uma abordagem multifacetada, com políticas públicas e instruções voltadas à formação desses profissionais”, diz.
Outra evidência encontrada pela pesquisa foi a de que o papel dos profissionais de saúde é central no enfrentamento da hesitação vacinal. “Eles representam um grupo especialmente importante para a investigação dos fatores vinculados ao processo de vacinação e à confiança nas vacinas. Profissionais bem-informados, com conhecimento e experiência, que acreditam na segurança e eficácia da vacina, tendem a recomendá-la a seus pacientes”, afirma Fernanda.
A professora destaca, ainda, que a participação dos profissionais de educação também é fundamental para a manutenção das altas taxas de vacinação, pois estes disseminam informações corretas sobre saúde, contribuindo para a formação de uma sociedade mais segura e saudável. “A escola, com grande influência sobre estudantes, famílias e redes sociais locais, pode ser reconhecida como um importante canal de socialização do conhecimento e um espaço propício para debates voltados à promoção da saúde e à prevenção de doenças”.
Ela enfatiza que os professores devem promover a vacinação, incorporando não apenas a base científica sobre eficácia e segurança, mas também os aspectos morais e o entendimento da imunização como dever cívico e educativo. “Para a comunidade escolar, é muito importante investir em formação específica para professores. Isso pode transformá-los em agentes promotores da vacinação”, reforça.
Os pesquisadores concluíram que a promoção de estratégias conjuntas entre saúde e educação voltadas ao ambiente escolar são cruciais para combater o fenômeno da hesitação vacinal. Por meio de intervenções que ampliem a capacitação de gestores e professores sobre vacinas, associadas a políticas públicas de comunicação transparentes e contextualizadas, os profissionais de educação se tornam multiplicadores de informações confiáveis, podendo contribuir para diminuir dúvidas e aumentar a adesão às vacinações. O estudo aponta que a hesitação vacinal, complexa e multifatorial, só poderá ser superada com ações coordenadas entre profissionais de saúde, educadores, formuladores de políticas e a sociedade em geral.
Fonte
Assessoria de Comunicação da Escola de Enfermagem da UFMG
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