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Gestão 2026-2030

‘Mais que os dons, importa o que fazemos deles’, defende Alessandro Moreira ao assumir Reitoria da UFMG

Novo reitor recebe o cargo com a missão de 'fortalecer políticas públicas para eliminar barreiras e desigualdades e estabelecer reparações'

Por Ewerton Martins Ribeiro

Alessandro Fernandes: bondade traduzida na prática do acolhimento e do cuidado
Foto: Jebs Lima | UFMG

“Eu jamais esperaria estar aqui, mas penso que a vida é feita tanto de destinos quanto de escolhas. Todos temos dons, valores, mas mais importante que nossos dons e valores são as escolhas que fazemos a partir deles. Quando Sandra me convidou para ser seu vice-reitor, foi um momento de escolha [dela, minha]. Então, antes de qualquer palavra, eu cumprimento você, Sandra, para dizer da minha alegria de poder dar continuidade à sua gestão desta Universidade.”

Com essas palavras ao mesmo tempo altivas e humildes, Alessandro Fernandes Moreira, professor da Escola de Engenharia, deu início ao seu primeiro pronunciamento como reitor da UFMG, em solenidade realizada na noite desta quinta-feira, 19, no auditório da Reitoria. O discurso foi o desfecho de uma emocionante cerimônia de transmissão de cargo, conduzida pela reitora das gestões 2018-2022 e 2022-2026, Sandra Regina Goulart Almeida, que esteve, na mesa do evento, ladeada por vários reitores de gestões anteriores: Francisco César de Sá Barreto (1990-2002), Ana Lúcia Almeida Gazzola (2002-2006), Ronaldo Tadêu Pena (2006-2010) e Jaime Arturo Ramírez (2014-2018). A convite de Sandra, Alessandro foi seu vice-reitor em ambas as suas gestões, 2018-2022 e 2022-2026, de modo que a transmissão de cargo se deu em tom de continuidade e mútua deferência.

Após os tradicionais cumprimentos iniciais dirigidos às inúmeras autoridades presentes – momento em que, avesso à sisudez dos protocolos, falou também diretamente, em tom familiar, a várias pessoas da plateia, entre as quais estavam amigos e parentes –, Alessandro Moreira tratou de demarcar, já nas primeiras considerações de sua mensagem à comunidade, um aspecto que pretende ter como inegociável em sua gestão.

Ao iniciar dizendo que pautaria seu tempo à frente da universidade pelos signos da “bondade, justiça e verdade”, Alessandro afirmou em tom assertivo: “Falo da bondade que se traduz na prática do acolhimento e do cuidado: o cuidado com o meio ambiente, o cuidado com as pessoas; a bondade que se traduz no respeito mútuo e na luta constante contra o preconceito, contra o racismo, contra a homofobia e contra tantas outras formas de discriminação”, disse. Sob essa premissa, o novo reitor afirmou que um dos focos do seu mandato será a consolidação das políticas de saúde mental e de acessibilidade e inclusão da Universidade, “expandindo a visibilidade e a efetividade das políticas de Direitos Humanos, das Ações Afirmativas e das estratégias para que haja uma permanência qualificada na UFMG”.

Walmir Caminhas
Walmir saudou o amigo: estamos juntos
Foto: Jebs Lima | UFMG

Ainda ao tratar de “bondade, justiça e verdade”, Alessandro disse, ao abordar o tema da justiça: “A justiça se traduz em fortalecer as políticas públicas de nossa instituição que buscam eliminar barreiras e desigualdades e estabelecer reparações. Nesse sentido, para mim, fortalecer a política de ações afirmativas e as políticas de gênero e sexualidade é missão.” E quanto à verdade: “A verdade se traduz em estabelecer projetos pedagógicos para a formação política, ética e cidadã de nossos alunos. Sim, a universidade é lugar de políticas, no plural. Em minha gestão, será compromisso institucional combater a desinformação e criar canais, mecanismos e projetos para formação ética e cidadã.” A partir daí, em um discurso que, como logo advertiu, seria longo, o novo reitor passou a delinear os demais aspectos gerais de seu plano de gestão, momento em que falou em ideias econômicas como “busca pela justiça distributiva”, “redução das assimetrias regionais”, “desenvolvimento sustentável” e “diminuição das desigualdades sociais”. “A universidade pública deve ser, ao mesmo tempo, espaço de ciência, cultura e inovação, mas também de acolhimento e cuidado”, repetiu Alessandro, cerca de vinte minutos depois, ao final de sua fala, demarcando o que pareceu figurar como um aspecto central de seus planos de atuação.

Relativamente ao aspecto social das relações universitárias, Alessandro falou em “inclusão dos diferentes corpos e saberes” e em “reconhecimento da diversidade que nos singulariza e confere cidadania”, em consonância com premissas que já vinham em curso nas duas últimas gestões em que ele foi vice-reitor. Em relação ao aspecto propriamente educacional, ele falou de seus planos de “ampliar a transversalidade da graduação e da pós-graduação”, de promover “as formações transversais e interdisciplinares” e a “convergência curricular” e de ampliar, para a pós-graduação, a “formação em extensão” recentemente implantada na graduação.

Ainda no campo do ensino, Alessandro defendeu o incentivo ao “protagonismo estudantil” e a realização de “ações de ensino, pesquisa e extensão que aproximem graduandos da Unidade Especial de Educação Básica e Profissional (Ebap) da UFMG”, assim como das redes públicas de educação básica. “Também pretendemos intensificar as práticas que favoreçam a compreensão da transversalidade da cultura, reconhecendo as capacidades de articulação de diversas áreas do conhecimento e das experiências sociais que estão nela contidas”, demarcou.

Público na cerimônia de posse do novo reitor
Público na cerimônia de posse do novo reitor
Foto: Jebs Lima | UFMG

Compromisso com o bem público
“Hoje, ao vê-lo nesse lugar, sinto uma mistura de emoções: orgulho por ver um amigo chegar tão longe, esperança por saber que a Universidade está em boas mãos e tranquilidade por conhecer seu caráter, sua integridade, seu compromisso inabalável com o bem público.” Essa saudação a Alessandro partiu de Walmir Matos Caminhas, professor da Escola de Engenharia e diretor da Fundação de Apoio à UFMG (Fundep). “Em oito anos como vice-reitor, você aprendeu os meandros da administração central, os desafios orçamentários, as dores e conquistas de uma Universidade complexa como a UFMG. Você e Sandra souberam encarar a crise da pandemia vendo-a como uma oportunidade para mostrar a importância da ciência e da Universidade para o país”, lembrou Walmir.

“Quando você e Alamanda [Alamanda Kfoury Pereira, professora da Faculdade de Medicina escolhida por Alessandro para ser a vice-reitora de Alessandro Moreira na gestão 2026-2030] lançaram a chapa com o nome ‘UFMG Acolhedora’, eu fiquei muito feliz, porque uma universidade acolhedora reconhece a importância da diversidade, cuida da saúde mental, luta pela permanência estudantil e valoriza cada servidor”, disse Walmir Caminhas, que enfrentou uma confessada timidez para, ainda assim, estar no púlpito da Reitoria saudando o amigo. “Mas a caminhada está apenas começando. Vocês sabem melhor que ninguém que não será fácil, mas sabem também que a história da UFMG é feita de superação. Quantas crises já não enfrentamos? Quantas vezes já não duvidaram da nossa capacidade? E aqui estamos: mais fortes, mais unidos, mais comprometidos com a sociedade. Saibam, portanto, que vocês não estarão sozinhos: toda a comunidade universitária estará aqui, caminhando junto, semeando junto, para que, ao final dessa gestão, possamos olhar para trás e ver que fizemos o melhor que pudemos: acolhemos, inovamos, incluímos, cuidamos.”

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Universidade como comunidade, democracia como valor inegociável
“Em certa medida, a palavra universidade em tem em si um valor de comunidade”, disse Alessandro em dado momento, em diálogo com as palavras que ouvira minutos antes Walmir. “Se nos vemos como essa comunidade, é porque comungamos valores, cultura e saberes que fortalecem nossos laços e nos fazem crescer juntos.”

Sob essa perspectiva comunitária, Alessandro afirmou que sua gestão pretende “fortalecer a gestão democrática e colegiada, promovendo mais transparência e participação nos processos decisórios”. Em seu entendimento, a instituição universidade tem um papel não apenas formativo, mas de transformação da sociedade. “A universidade pública é aquela que serve à sociedade e aos questionamentos de seu tempo”, disse. Ainda quanto ao aspecto mais prático da realidade administrativa universitária, destacou-se em seu discurso a informação de que a UFMG está trabalhando na implantação de um Centro de Convergência no prédio da Biblioteca Central, no campus Pampulha, que atualmente passa por reforma. “Será um espaço para realização de projetos multidisciplinares e transdisciplinares”, informou.

Ao falar sobre o interesse em fortalecer as articulações da UFMG com outras instituições e com os setores públicos municipal, estadual e federal, no âmbito dos três poderes, Alessandro fez uma defesa enfática da democracia como premissa necessária e inegociável para a Universidade e para o país. “As ações interinstitucionais, além de beneficiarem todos os envolvidos – universidade, sociedade civil e poder público –, geram um ambiente favorável para a defesa do estado democrático, para a busca pela garantia de direitos, para a luta contra a desigualdade. O preceito para todas essas ações é a democracia. Quando não há democracia e nos falta a liberdade de cátedra, quando nos é retirada a livre manifestação de ideias, acaba a autonomia universitária”, disse. “A democracia implica o respeito incondicional ao Estado de Direito. Em outros termos, a democracia é a baliza para o percurso formativo da nossa comunidade universitária”, reforçou, afirmando em seguida que sua gestão trabalhará para garantir e fortalecer a autonomia universitária, singularidade que é prevista em princípio constitucional, mas que recorrentemente fica sob ataque de forças espúrias da realidade brasileira.

Alamanda, Sandra e Alessandro
Alamanda, Sandra e Alessandro
Foto: Jebs Lima | UFMG

Trajetórias
Vice-reitor nas duas últimas gestões (2022-2026 e 2018-2022), comandadas pela professora Sandra Goulart Almeida, Alessandro Fernandes Moreira foi diretor da Escola de Engenharia da UFMG (2014-2018) e vice-diretor da mesma unidade (2010-2014). É professor titular do Departamento de Engenharia Elétrica da UFMG, onde ingressou em 1993. Formado em Engenharia Elétrica pela UFMG (1991), tem mestrado em Engenharia Elétrica, também pela UFMG (1993), e doutorado em Engenharia Elétrica pela University of Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos (2002). Moreira atua nos cursos de graduação em Engenharia de Controle e Automação, Engenharia Elétrica e Engenharia de Sistemas. Ele tem experiência na área de Engenharia Elétrica, com ênfase em automação eletrônica de processos elétricos e industriais, e trabalha com as seguintes linhas de pesquisa: eletrônica de potência, máquinas elétricas e acionamentos industriais. Nos últimos tempos, tem-se dedicado à área de educação em engenharia, com foco em inovação e empreendedorismo na formação do engenheiro. Desde 2012, coordena o Programa de Inovação para Educação em Engenharia (ENG200).

Professora titular do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia, Alamanda Kfoury é graduada em Medicina pela UFMG (1986), onde também concluiu mestrado (1990) e doutorado (1998) em Obstetrícia e Medicina Fetal, no Programa de Pós-graduação em Saúde da Mulher. Seu ingresso como docente da UFMG ocorreu em 1994 (como substituta), tornando-se efetiva, em regime de dedicação exclusiva, em 1998. Sua carreira acadêmica é marcada pela articulação das atividades de ensino, pesquisa, extensão e administração. Desde 2020, é professora permanente do Programa de Pós-graduação em Saúde da Mulher, e suas atividades de pesquisa e extensão estão vinculadas ao Centro de Medicina Fetal do Hospital das Clínicas (HC) da UFMG. Alamanda teve participação ativa no processo de reforma do currículo do curso de Medicina, implantado em 2014, e da posterior reforma curricular. No período 2018-2022, ela ocupou o cargo de vice-diretora da Faculdade de Medicina da UFMG. Em seguida, foi eleita diretora para um mandato de quatro anos, formando com a vice, a professora Cristina Gonçalves Alvim, a primeira diretoria feminina da unidade.

Componentes da mesa
Alessandro, Alamanda e Sandra com Jaime Ramírez, Ana Lúcia Gazzolla, Lúcia Pellanda e Ronaldo Pena
Foto: Ana Luísa Belo | UFMG

Categoria: Institucional

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