Declaração da escravidão como crime mais grave contra a humanidade reafirma importância de enfrentar legado histórico dessa exploração, afirma professora da UFMG
Decisão da ONU busca ampliar ações para fortalecimento de políticas de promoção da igualdade e equidade racial
Nesta terça-feira, 31 de março de 2026, a professora afiliada ao Programa de Pós-graduação em História da UFMG, professora de História da África na UFMG de 2010 a 2022, que atualmente ensina na Universidade da Pensilvânia, Vanicléia Silva Santos, conversou com a jornalista e apresentadora Luiza Glória, no programa Conexões.
A Organização das Nações Unidas (ONU) declarou que o tráfico transatlântico de pessoas africanas escravizadas foi o crime mais grave contra a humanidade já cometido. O texto foi aprovado na última quarta, Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão e do Tráfico Transatlântico de Escravos, 25 de março, pela maioria dos países, inclusive do Brasil. A resolução estabelece que os Estados-Membros da ONU devem considerar a apresentação de desculpas pelo tráfico de escravizados e contribuir para um fundo destinado à reparação.
123 países votaram a favor, apenas três foram contra, Estados Unidos, Israel e Argentina, enquanto outros 52 optaram pela abstenção, entre eles Reino Unido, Portugal e Espanha. Tanto os países da União Europeia quanto os Estados Unidos argumentaram que a resolução poderia implicar uma hierarquia entre crimes contra a humanidade, tratando alguns como mais graves do que outros. Em contrapartida, o presidente de Gana, John Dramani Mahama, acusou os países que não votaram a favor de tentarem “normalizar o apagamento da história da população”.
Durante cerca de 400 anos, estima-se que cerca de 12,5 milhões de pessoas africanas tenham sido sequestradas e vendidas como mercadorias em colônias de nações europeias, crime que continuou a ser cometido mesmo após a independência de algumas delas. O Brasil é considerado o último país do continente americano a abolir a escravidão, o que se deu apenas em 1888, e também foi o principal destino dos africanos escravizados, tendo recebido mais de quatro milhões deles.
A professora ressaltou que a resolução chama a atenção para a importância de enfrentar o legado histórico da escravidão e reconhecer que não se trata de ato isolado de séculos atrás, mas que tem impactos duradouros até hoje, expressos no racismo. A pesquisadora apontou que a posição dos países da União Europeia, de abstenção, revela um medo da reparação, algo que nem mesmo o texto aprovado reivindica como algo imediato, mas a ser discutido futuramente.