Trabalho da UFMG em parceria com comunidade quilombola concorre a prêmio da Associação Brasileira de Antropologia
Estudo articula formas de compreender o território a partir das relações entre modos de vida ribeirinhos
Por: Com informações do Centro de Comunicação do campus regional de Montes Claros e da Assessoria de Comunicação da Unimontes
Um trabalho realizado de forma associada entre a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) foi selecionado para concorrer ao Prêmio Pierre Verger de Antropologia Visual, vinculado à 35ª Reunião Brasileira de Antropologia (RBA). O projeto Caminho de Rio foi desenvolvido no âmbito da dissertação do mestrando Gleydson Mota, com defesa prevista para o fim deste mês, no Programa de Pós-Graduação em Sociedade, Ambiente e Território (PPG-SAT).
O ensaio adota o método de “pesquisar em companhia”, sendo construído junto a Arnaldo da Silva Vieira e Enedina Souza dos Santos, mestres da Comunidade Quilombola, Pesqueira e Vazanteira de Croatá, em Januária, no Norte de Minas, às margens do rio São Francisco. Gleydson faz questão de compartilhar a autoria do trabalho com os outros dois colaboradores.
A pesquisa é orientada pela professora Vanessa Marzano (UFMG) e conta com a coorientação do professor Lucas Álvares, vinculado à Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e à Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
Organizada pela Associação Brasileira de Antropologia (ABA), a Reunião Brasileira de Antropologia tem como tema central Antirracismo e Pluridiversidade e será realizada entre os dias 13 e 17 de julho, na Universidade Federal de Goiás (UFG), em Goiânia.
Fotografia
A exposição Caminho de Rio integra a programação da RBA e articula fotografia, instalação artística e etnografia visual como formas de compreender o território a partir das relações entre águas, plantas, seres encantados, animais e modos de vida ribeirinhos.
O ensaio é composto por imagens produzidas em película analógica de 35 milímetros, recurso que, segundo os autores, “introduz uma temporalidade própria ao processo de criação, marcada pela espera da revelação dos filmes, pelo limite material e pela atenção ao encontro”.
Nesse contexto, a fotografia não é utilizada apenas como registro, mas como parte constitutiva do próprio fazer etnográfico, transformando-se em um evento relacional. As imagens resultam de encontros situados no campo e de uma prática compartilhada de construção do conhecimento.
A mostra amplia essa perspectiva ao incorporar elementos do território, como rede de pesca, frutos de jatobá e exsicatas (exemplares de plantas secas, identificadas e armazenadas em herbários) coletadas durante as caminhadas de campo. Esses elementos compõem uma experiência sensível que aproxima ciência e arte, mobilizando diferentes formas de traduzir e narrar o território.
Para os autores, a seleção para o Prêmio Pierre Verger reconhece a relevância do trabalho no campo da Antropologia Visual, ao destacar abordagens que articulam produção de conhecimento, experimentação estética e diálogo com comunidades tradicionais.
Autoria
Gleydson Mota ressalta que, embora a organização do prêmio não tenha divulgado oficialmente a autoria de Arnaldo Vieira e Enedina Santos, possivelmente por não possuírem vínculo institucional, ele busca questionar essa lógica.
“Afinal, na literatura que utilizei, o evento fotográfico é realizado não apenas por quem fotografa, mas também por quem consente, por quem está dentro e fora do quadro”, afirma, com base na autora Ariella Azoulay.
O pesquisador destaca ainda que as “companhias de pesquisa” são detentoras de saberes e também atuam como pesquisadoras em seus territórios. “A importância dessa perspectiva é reconhecer, no âmbito acadêmico, outros modos de fazer ciência”, afirma.
Por fim, conclui que “todos os envolvidos no processo de produção das imagens também são autores”, evidenciando uma abordagem fundamentada na prática do pensamento decolonial e no conceito de pesquisa em companhia.
Fonte
Centro de Comunicação do campus regional de Montes Claros
comunica@ica.ufmg.br
Imagem de Divulgação