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Pesquisa e Inovação

Estudo UFMG: o que a história das aves revela sobre a Amazônia

Por: Assessoria de Imprensa UFMG

A Amazônia costuma ser imaginada como uma grande floresta contínua, verde e aparentemente uniforme, mas, para os organismos que vivem nela, é muito mais do que isso. É um mosaico de ambientes, com florestas de terra firme, áreas alagadas, margens de rios, savanas, florestas de altitude e muitos outros tipos de paisagem. Cada ambiente oferece condições próprias de clima, solo, relevo, vegetação, alimento e abrigo. Um estudo recente, liderado pelo professor Ubirajara Oliveira, do Centro de Sensoriamento Remoto (CSR) da UFMG, e publicado na revista científica Journal of Biogeography, analisou mais de 51 mil registros de ocorrência de 566 espécies de aves amazônicas. 

A equipe, que envolve pesquisadores da UFMG, do Museu de Ciências Naturais PUC Minas, e um pesquisador independente do Rio de Janeiro, investigou como as comunidades mudam de um lugar para outro e fez uma comparação considerando os parentescos evolutivos entre essas aves. O objetivo era compreender como se altera a composição das linhagens evolutivas ao longo da Amazônia. Essas mudanças foram contrastadas com fatores como clima atual, solo, relevo, vegetação, grandes rios e estabilidade climática – áreas onde o clima variou menos – no passado. Essas regiões podem ter funcionado como refúgios, mantendo condições mais favoráveis para certas espécies durante períodos antigos de mudança climática.

Conforme o estudo, dentre os diversos grupos de organismos que existem, as aves podem ser particularmente interessantes para entender um pouco sobre esse ambiente. Elas são o grupo de vertebrados terrestres com maior número de espécies e são os únicos dinossauros que sobreviveram à extinção do Cretáceo. Isso significa que carregam uma longa história evolutiva, marcada por resistência, adaptação e convivência com diferentes ambientes ao longo do tempo. Por serem tão diversas e estarem presentes em quase todos os tipos de paisagem, são excelentes pistas vivas para entender como a biodiversidade amazônica se organiza.

“Quando estudamos uma espécie isoladamente, olhamos para uma história particular. Sua distribuição pode depender da capacidade de voar, do alimento que consome, do ambiente que tolera ou de eventos específicos de sua própria história. Entretanto, quando olhamos para o conjunto de espécies de uma região, ou seja, as comunidades, a questão muda. Ao compará-las, podemos enxergar padrões mais amplos, ligados a impactos na biota como um todo”, comenta Ubirajara Oliveira, coordenador do estudo.

“Além disso, podemos olhar para um aspecto diferente das comunidades, como quais conjuntos de linhagens evolutivas estão em cada local e o quanto locais diferentes têm linhagens que se separaram evolutivamente mais recentemente, ou há mais tempo”. Por isso, comparar comunidades também do ponto de vista evolutivo permite investigar se diferentes regiões da Amazônia se mantiveram mais isoladas ao longo do tempo, levando à formação de certos conjuntos de espécies, ou se compartilharam uma história evolutiva mais parecida com outros locais.

Sobre o estudo

Quando a Amazônia foi analisada como um todo, os resultados mostraram que nenhum fator isolado explica completamente a organização das comunidades de aves. As diferenças se mostraram mais relacionadas a uma combinação de solo, relevo, clima e estabilidade climática. Ainda assim, esses fatores juntos não explicaram tudo, indicando que devem existir outros a serem analisados. Já do ponto de vista evolutivo, o clima pareceu ser o que melhor explica a organização das comunidades. 

Como a Amazônia não é formada por um único tipo de ambiente, os pesquisadores também olharam, separadamente, para cada tipo de paisagem, a fim de investigar diferentes causas para a organização das comunidades de aves. Eles perceberam que, em alguns ambientes determinados, os fatores ambientais explicaram muito melhor a composição das aves do que quando foi analisada a Amazônia como um todo.

Um caso marcante foi o de ambientes abertos sobre solos arenosos, pobres em nutrientes, com vegetação baixa e muito particular. Esses ambientes são chamados de campinaranas. Nelas, os fatores analisados foram mais eficazes em explicar a distribuição das comunidades de aves, sugerindo que as campinaranas podem funcionar como ilhas ecológicas dentro da Amazônia, com condições próprias e comunidades especialmente adaptadas a elas. 

Outros ambientes contaram histórias diferentes. Nas florestas de terra firme, o solo teve papel importante para explicar quais espécies aparecem em cada lugar, enquanto o relevo esteve mais associado à composição evolutiva. Nas florestas de altitude, o clima teve maior destaque. Já nas margens dos rios, os fatores analisados explicaram menos as comunidades, talvez porque muitas aves desses ambientes se movam com mais facilidade ao longo dos corredores fluviais, ou porque detalhes locais, como o ritmo das cheias e a estrutura da vegetação ribeirinha, não tenham sido capturados pela análise.

Embora sejam elementos centrais da paisagem amazônica, os rios tiveram um papel menor do que o esperado na explicação dos conjuntos de espécies como um todo, mas isso não significa que eles não importem. Grandes rios podem ser muito importantes para espécies específicas, como é o caso dos jacamins, aves terrestres amazônicas do gênero Psophia. Para grupos como este, rios podem limitar deslocamentos e ajudar a separar populações. O estudo sugere, entretanto, que esse efeito, tão importante para certas espécies, não basta para explicar a organização geral das comunidades de aves da Amazônia.

Os resultados do estudo demonstram que a floresta é feita de muitas histórias sobrepostas. Assim, diferentes fatores explicam as comunidades de locais distintos da Amazônia. Essa, do ponto de vista das comunidades de aves, não é uma paisagem única. É um conjunto de mundos conectados, cada um guardando uma parte diferente da diversidade e da história evolutiva da região. É provável que esses resultados não sejam restritos a aves; outros grupos de organismos amazônicos também devem responder a esse mosaico de ambientes, barreiras, histórias climáticas e condições locais de forma similar. Entender a biodiversidade da Amazônia exige, portanto, olhar para a floresta não como uma unidade simples, mas como uma combinação de paisagens, linhagens e histórias.

 

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Fonte

Assessoria de Comunicação do Centro de Sensoriamento Remoto

comunicacao.csr@gmail.com

https://www.csr.ufmg.br/