Pesquisa UFMG: Brasil amplia expectativa de vida em sete anos, mas pandemia interrompe avanço histórico na saúde
Dados serão apresentados no dia 6 de abril, em evento transmitido pelo Canal do Centro de Telessaúde HC-UFMG no Youtube
Por: Assessoria de Imprensa UFMG
Em três décadas, o Brasil deu um salto histórico na saúde pública: a mortalidade caiu mais de um terço e a população ganhou, em média, sete anos de vida. Mas o avanço, impulsionado pela queda de doenças infecciosas e cardiovasculares, esbarra em velhos e novos desafios: das enfermidades crônicas que ainda lideram as mortes ao impacto devastador da pandemia de covid-19, que interrompeu bruscamente essa trajetória de progresso. É o que revela uma nova pesquisa coordenada pela professora Deborah Carvalho Malta, do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Saúde Pública da Escola de Enfermagem da UFMG, e publicada na revista científica The Lancet Regional Health – Americas.
Os dados fazem parte do estudo Carga Global de Doenças (GBD) 2023, que analisou indicadores como mortalidade, carga de doenças, fatores de risco e expectativa de vida nas 27 unidades federativas do Brasil entre 1990 e 2023. “O objetivo foi investigar como essas mudanças ocorreram antes, durante e após o período da pandemia, avaliando o impacto da Covid-19 em 2020-2021 e a recuperação do país até 2023. Os resultados fornecem uma das avaliações mais abrangentes até o momento sobre como os indicadores de saúde mudaram no Brasil, tanto em nível nacional quanto estadual”, destacou a professora Deborah.
A pesquisa revelou que o acidentes vasculares cerebrais (AVC) e doenças arteriais coronarianas (DAC) permaneceram como as principais causas de morte, e o índice de massa corporal (IMC) elevado tornou-se o principal fator de risco que contribuiu para a carga de doenças em 2023, ultrapassando a hipertensão arterial, que havia sido o principal fator em 2021.
Os resultados da pesquisa serão discutidos no dia 6 de abril, com a participação dos autores: professoras Mariana Santos Felisbino Mendes e Deborah Malta, da Escola de Enfermagem da UFMG; professores Luiza Brant, Antônio Ribeiro e Renato Teixeira, da Faculdade de Medicina da UFMG e do professor Nohsen Naghavi, da Universidade de Washington. O evento será transmitido pelo Canal do Centro de Telessaúde HC-UFMG no Youtube, às 17 horas.
Reflexos da pandemia de covid-19 na saúde
Os achados apontam que o padrão de aumento da expectativa de vida e reduções nas principais causas de morte de 1990 a 2019 foi interrompido pela pandemia de coronavírus. Entre 2019 e 2021, a mortalidade aumentou cerca de 28% e as taxas de anos de vida ajustados por incapacidade (DALY) subiram 18%, com a covid-19 se tornando a principal causa de morte e carga de doença em 2020 e 2021. Também foram identificadas diferenças significativas nos impactos da pandemia de covid-19 em critérios geográficos, socioeconômicos e por sexo. Enquanto os transtornos de ansiedade tornaram-se a principal causa de DALYs entre as mulheres em 2023, a violência interpessoal foi o maior fator entre os homens.
De acordo com a pesquisadora, as diferenças regionais nos resultados de saúde durante a pandemia refletem desigualdades de longa data nas condições de vida e na capacidade do sistema de saúde das regiões brasileiras. “Entre 1990 e 2023, os estados do Sul e Sudeste experimentaram maiores melhorias a longo prazo e menores retrocessos pandêmicos, enquanto a mortalidade padronizada por idade aumentou mais de 50% no Amazonas (51,4%), Roraima (50,5%) e Rondônia (52,8%), com taxas de mortalidade superiores a 900 óbitos por 100 mil habitantes em 2021.”
Deborah Malta acrescenta que, apesar de seguir uma tendência global, a queda na expectativa de vida pôde ser observada em diferentes magnitudes ao redor do país. Segundo ela, a queda foi mais acentuada em Rondônia (redução de 6,01 anos), Amazonas (redução de 5,84 anos) e Roraima (redução de 5,67 anos) na região Norte, nas do Centro-Oeste, Paraná no Sul e São Paulo no Sudeste. “Os estados localizados principalmente na região Nordeste apresentaram os menores retrocessos na expectativa de vida durante a pandemia (entre 2 e 2,5 anos), porque os governadores defenderam a ciência, disponibilizaram vacinas, fecharam estabelecimentos não essenciais e evitaram aglomerações”, complementa.
O estudo indicou, ainda, que houve maior mortalidade nos estados onde as respostas não se alinharam consistentemente com as orientações de saúde pública, incluindo adesão limitada ao uso de máscaras, fechamento de empresas e vacinação oportuna, bem como promoção de tratamentos não comprovados, como a cloroquina. “A pandemia de covid-19 retrocedeu 3,4 anos da expectativa de vida dos brasileiros, revertendo décadas de progresso e com um desempenho abaixo de outros países da América Latina, embora esses anos tenham sido recuperados entre 2021 e 2023. Isso sugere que a carga de doenças e os impactos da pandemia teriam sido reduzidos caso o governo federal tivesse adotado medidas nacionalmente coordenadas e baseadas em evidências científicas”, completa a professora.
Para Malta, os resultados revelam a força e resiliência do SUS, mas reforçam a necessidade de políticas públicas voltadas para equidade e preparação para futuras emergências sanitárias. “As principais prioridades para a saúde pública nos próximos anos serão a promoção do envelhecimento saudável, abordagens inovadoras para o manejo de doenças crônicas não transmissíveis, retomada de programas de imunização e preparação do sistema de saúde para futuras crises sanitárias com foco em pessoas vulneráveis”, prevê.
Fonte
Assessoria de Comunicação da Escola de Enfermagem da UFMG
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