Ler é construir sentidos: por que formar leitores é mais importante do que vender livros
É preciso ir além dos dados de consumo e recolocar o direito à literatura no centro do debate
Por Renata Amaral | Professora do Núcleo de Letras do Centro Pedagógico da UFMG
Neste 23 de abril, celebra-se o Dia Mundial do Livro e dos Direitos Autorais, instituído pela Unesco como forma de reconhecer o papel dos livros na vida das pessoas e de reafirmar seu valor como ponte entre gerações, culturas e modos de ver o mundo. Mais do que celebrar o objeto livro, essa data nos convoca a refletir sobre a leitura como prática social, cultural e formativa.
No campo da educação, especialmente na formação de leitores literários, a leitura é compreendida como um processo que ultrapassa o domínio de habilidades técnicas. Envolve experiência estética, construção de sentidos e inserção em práticas culturais compartilhadas, nas quais os sujeitos interpretam, significam e narram o mundo.
Pesquisas desenvolvidas no âmbito da educação básica e da formação docente têm evidenciado a centralidade da mediação na constituição do leitor, seja em sala de aula, em bibliotecas escolares ou em espaços como clubes de leitura. Esses estudos mostram que a formação do leitor depende de condições concretas de acesso ao livro, de práticas sistemáticas de leitura e da presença de mediadores qualificados.
Nesse contexto, os dados recentemente divulgados pela pesquisa Panorama do consumo de livros, da Câmara Brasileira do Livro, realizada em parceria com a Nielsen BookData, merecem atenção. O estudo indica que 18% da população brasileira adulta comprou ao menos um livro no último ano, o que representa cerca de 3 milhões de novos consumidores.
É um dado relevante, mas que precisa ser problematizado.
Ler não é apenas acessar textos, mas construir sentidos, elaborar experiências e inscrever-se no mundo como sujeito de linguagem.
A pesquisa se volta ao comportamento de consumo: quem compra livros, como compra, por onde compra. Trata-se de um recorte importante para o setor editorial, mas insuficiente para compreender a formação do leitor. Comprar um livro não equivale, necessariamente, a ler, e menos ainda a se constituir leitor.
Formar leitores, especialmente leitores literários, é um processo complexo, que envolve tempo, experiência, mediação e construção de sentidos. Ler não é apenas acessar textos, mas construir sentidos, elaborar experiências e inscrever-se no mundo como sujeito de linguagem.
Essa perspectiva dialoga com Paulo Freire, ao sustentar que a leitura da palavra está intrinsecamente ligada à leitura do mundo, e com Antonio Candido, que reconhece a literatura como direito humano fundamental, capaz de ampliar a sensibilidade, organizar a experiência e contribuir para a formação dos sujeitos.
Nesse horizonte, ganha relevância a noção de soberania imaginativa, entendida como a capacidade de os sujeitos produzirem imagens próprias de si, do outro e do mundo, afirmando sua presença simbólica e sua possibilidade de narrar a própria experiência. Em um contexto marcado por disputas simbólicas e por processos de homogeneização cultural, formar leitores implica garantir condições para que possam imaginar, narrar e reinventar suas experiências.
É ele [o professor] quem realiza a mediação da leitura, criando condições para que o livro deixe de ser objeto e se torne experiência. Sem essa mediação, o livro pode circular, mas não necessariamente forma leitores.
Os dados da própria pesquisa evidenciam que o acesso ao livro ainda é atravessado por desigualdades. Parte significativa da população não adquire livros por ausência de livrarias próximas ou pelo custo dos exemplares. Ao mesmo tempo, cresce o acesso por meios digitais, muitas vezes associado à circulação gratuita de arquivos. Esse pode ser um sinal de uma demanda por leitura que nem sempre se converte em consumo formal.
O digital tem grande impacto e amplia possibilidades, mas não resolve a questão central. O acesso, por si só, não garante a formação do leitor. Ler exige mediação: processos de apresentação, acompanhamento e construção compartilhada de sentidos.
Nesse processo, o papel do professor é decisivo. É ele quem realiza a mediação da leitura, criando condições para que o livro deixe de ser objeto e se torne experiência. Sem essa mediação, o livro pode circular, mas não necessariamente forma leitores.
É nesse ponto que políticas públicas assumem um papel estruturante. Iniciativas como o programa MEC Livros são fundamentais não apenas para ampliar o acesso, mas para sustentar práticas de leitura nas escolas, fortalecer bibliotecas e garantir condições materiais e pedagógicas para a formação do leitor.
Também é fundamental assegurar a diversidade de narrativas. Como aponta a escritora Chimamanda Ngozi Adichie, o risco de uma história única está na redução das experiências humanas a uma única perspectiva. Garantir o acesso a múltiplas vozes é condição para uma formação leitora crítica e plural.
Diante desse cenário, talvez seja necessário deslocar o foco. Mais do que quantos livros são vendidos, importa compreender que leitores estão sendo formados, em que condições e com quais possibilidades de experiência e imaginação.
Celebrar o livro é muito importante. Mas é ainda mais urgente afirmar a leitura como direito, como experiência e como prática formativa.
No limite, não se trata apenas de ler livros. Trata-se de formar sujeitos capazes de ler o mundo e de escrevê-lo de outras maneiras, afirmando sua voz, sua imaginação e sua presença na vida social.
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