Aprovação pela CMBH da internação involuntária de dependentes químicos é tema de análise do mestre em Psicologia Diego Pastana
Psicólogo que trabalha na rede pública há 15 anos avalia retrocesso da garantia dos direitos de pessoas que fazem uso prejudicial de drogas
Nesta quarta-feira, 18 de março de 2026, o homem negro, psicólogo, especialista em Saúde Mental e mestre em psicologia pela UFMG, trabalhador da rede de saúde pública há 15 anos, foi referência técnica distrital de saúde mental em Belo Horizonte, ex-diretor do Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Outras Drogas de Contagem, atual coordenador da Unidade de Acolhimento Transitório Adulto de Belo Horizonte e integrante do Movimento Confluências de Minas Psi e da Frente Popular em Defesa da População em Situação de Rua de Minas Gerais, Diego Pastana, conversou com o jornalista e apresentador Hugo Rafael, no programa Conexões.
A Câmara Municipal de Belo Horizonte aprovou projeto de lei que autoriza a internação involuntária de usuários e dependentes químicos na rede municipal de saúde. A votação, que ocorreu na última quarta-feira em segundo turno, contou com 28 votos a favor e nove contrários. A proposta original é de autoria do vereador Bráulio Lara e autoriza a internação sem consentimento, em casos de risco à integridade física do paciente ou de terceiros. Segundo o texto, a internação involuntária deve ser autorizada por um médico responsável, mas pode ser pedida por familiares e responsáveis legais ou, ainda, profissionais da rede pública de saúde e assistência social.
O texto original trazia a possibilidade de agentes de segurança pública solicitarem a intervenção, mas isso foi retirado durante a tramitação. O período máximo previsto é de até noventa dias, tempo considerado necessário para desintoxicação. A medida também determina que o tratamento seja realizado com políticas públicas de saúde e assistência social, incluindo serviços do SUS, Sistema Único de Saúde e do SUAS, Sistema Único de Assistência Social. O dispositivo, que já vem sendo discutido desde 2025, é marcado por intensas manifestações contrárias de movimentos da população em situação de rua, em defesa da saúde mental e da luta antimanicomial.
O Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais emitiu uma nota expressando que o PL reforça a violência institucional, ignora a RAPS, Rede de Atenção Psicossocial, e fere direitos humanos. Já os favoráveis, afirmam que o projeto busca facilitar o acesso ao tratamento para pessoas que já perderam a capacidade de procurar ajuda por conta própria e se trata de uma política de cuidado. Agora, o PL vai ser encaminhado ao prefeito Álvaro Damião, que vai decidir pela sanção ou veto.
O psicólogo avaliou que o PL se trata de um retrocesso da garantia dos direitos de pessoas que fazem uso prejudicial de drogas. Para ele, é um texto com perspectivas higienistas, lembrando que, em debate no plenário, foram citadas as comunidades terapêuticas, locais caracterizados pela violação de direitos. Além disso, o especialista ressaltou que a lei não fala em ampliar os serviços de assistência social para essas pessoas. Pastana destacou que a política de redução de danos é referência e há expectativa pelo veto do poder executivo, uma vez que o projeto é inconstitucional e causaria aumento das solicitações de internação, defendeu.