{"id":13785,"date":"2025-11-24T08:09:00","date_gmt":"2025-11-24T11:09:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufmg.br\/?post_type=news&#038;p=13785"},"modified":"2025-11-24T14:22:13","modified_gmt":"2025-11-24T17:22:13","slug":"africa-no-brasil-um-nome-multiplos-sentidos","status":"publish","type":"news","link":"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-dev\/comunicacao\/noticias\/opiniao\/africa-no-brasil-um-nome-multiplos-sentidos\/","title":{"rendered":"\u201c\u00c1frica\u201d no Brasil: um nome, m\u00faltiplos sentidos"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Novembro Negro \u00e9 um convite \u00e0 escuta profunda. \u00c9 tempo de pensar a negritude brasileira e a africanidade brasileira como dimens\u00f5es complementares e, ao mesmo tempo, distintas, mas nunca sin\u00f4nimas. Uma fala da experi\u00eancia da brasilidade negra; a outra, da inscri\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, cultural e pol\u00edtica dos diversos povos do continente africano em n\u00f3s. Novembro Negro \u00e9 uma oportunidade, tamb\u00e9m, de pensarmos a branquitude. Afinal, como lembra Cida Bento, em <em>O pacto da branquitude,<\/em> e Lilia Schwarcz, em <em>Imagens da branquitude<\/em>, a quest\u00e3o negra s\u00f3 existe porque ela foi forjada pela quest\u00e3o branca \u2013 pela forma como a branquitude se construiu como norma, poder e privil\u00e9gio ao longo da forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do Brasil. E aqui cabem algumas provoca\u00e7\u00f5es: h\u00e1 validade em tratar a &#8220;negritude&#8221; e a &#8220;africanidade&#8221; como sin\u00f4nimas? As formas como nossos familiares pensavam sobre a \u00c1frica ainda fazem sentido no s\u00e9culo 21, ou j\u00e1 \u00e9 hora de conhecer (e aceitar) a realidade africana em sua complexidade \u2013 ou melhor, as m\u00faltiplas realidades africanas?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez seja hora de sairmos do lugar-comum, da zona de conforto e expandirmos nossos horizontes. Ou ser\u00e1 que &#8220;corre em nossas veias o sangue velho dos av\u00f3s&#8221;, como disse o poeta? Que brasileiro, de viagem marcada para algum pa\u00eds africano, ou estrangeiro africano no Brasil, n\u00e3o deparou com o seguinte di\u00e1logo: Personagem A: \u201cCara, semana que vem eu vou viajar pra Guin\u00e9\u201d. Personagem B: \u201cGuin\u00e9? Mas onde \u00e9 isso?\u201d Personagem A: \u201cNa \u00c1frica\u201d. \u201cPersonagem B: Ahhh, na \u00c1frica&#8230; ent\u00e3o voc\u00ea vai para a \u00c1frica? Eu tenho uma amiga africana. Personagem A: \u201cDe onde?\u201d Personagem B: \u201cora, da \u00c1frica!\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como ponto de partida, vale consultar o dicion\u00e1rio. \u00c1frica \u00e9 o terceiro maior continente do planeta, composto de 54 pa\u00edses internacionalmente reconhecidos, vastos arquip\u00e9lagos e realidades regionais muito diversas \u2013 do Magrebe ao Sahel, do Chifre da \u00c1frica ao Golfo da Guin\u00e9, do Vale do Nilo \u00e0 cidade do Cabo. \u00c9 espa\u00e7o geogr\u00e1fico e pol\u00edtico, com hist\u00f3rias milenares e modernas, cosmologias, l\u00ednguas, formas de organiza\u00e7\u00e3o social e express\u00f5es art\u00edsticas que n\u00e3o se deixam reduzir a uma unidade homog\u00eanea. Esse top\u00f4nimo carrega, ao mesmo tempo, um lugar f\u00edsico, uma pluralidade hist\u00f3rica e um campo de disputas de sentido. Sentido disputado, diga-se de passagem, porque h\u00e1 funcionalidades no seu emprego.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No Brasil, \u201c\u00c1frica\u201d \u00e9 um discurso fundador. O nosso pa\u00eds n\u00e3o existiria sem o trabalho, o saber e a resist\u00eancia de milh\u00f5es de africanos e seus descendentes, arrancados de m\u00faltiplas sociedades ao longo do per\u00edodo escravocrata. Em nossa l\u00edngua, na culin\u00e1ria, nas religiosidades, nos ritmos, nas artes da conviv\u00eancia e nas formas de luta pol\u00edtica, a diversidade africana estruturou o que chamamos de Brasil. Reconhecer essa funda\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas um ato de justi\u00e7a hist\u00f3rica: \u00e9 condi\u00e7\u00e3o para compreender a sociedade brasileira \u2013 seus conflitos, suas pot\u00eancias e seus impasses. \u00c9 tamb\u00e9m condi\u00e7\u00e3o de internacionaliza\u00e7\u00e3o do Brasil no s\u00e9culo 21. \u00c9 a partir do seu (re)conhecimento que as possibilidades internacionais frutificar\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A \u201c\u00c1frica\u201d tamb\u00e9m ocupa um espa\u00e7o simb\u00f3lico no imagin\u00e1rio nacional: ora aparece como espelho identit\u00e1rio, ora como alteridade distante, ora como mito de origem, ora como sin\u00f4nimo de exotismo, ora como lugar a ser explorado, ora como lugar de pobreza e mis\u00e9ria. \u00c9 o nome que est\u00e1 presente na festa e na f\u00e9, na m\u00fasica e na moda, mas tamb\u00e9m o que surge na piada f\u00e1cil e na manchete apressada. Nesse campo simb\u00f3lico, convivem reconhecimento e estere\u00f3tipo, celebra\u00e7\u00e3o e caricatura. \u00c9 nesse entremeio que precisamos cuidar dos sentidos.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Brasil n\u00e3o existiria sem o trabalho, o saber e a resist\u00eancia de milh\u00f5es de africanos e seus descendentes, arrancados de m\u00faltiplas sociedades ao longo do per\u00edodo escravocrata.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao longo de nossa hist\u00f3ria, o termo \u201c\u00c1frica\u201d tem sido muitas vezes reduzido: a um \u201cpa\u00eds\u201d gen\u00e9rico, sem capital; aos orix\u00e1s, como se o continente fosse apenas religiosidade; a um \u201clugar de pretos\u201d, esvaziado de cidadania; \u00e0 ancestralidade brasileira, como se fosse apenas passado; \u00e0 pobreza, como se fosse destino; a um \u201cn\u00e3o lugar\u201d, sem hist\u00f3ria, sem ci\u00eancia, sem Estado. Cada representa\u00e7\u00e3o tem um sentido social: o \u201c\u00c1frica-pa\u00eds\u201d simplifica; \u201c\u00c1frica-orix\u00e1s\u201d recorta o sagrado e apaga a pol\u00edtica; \u201c\u00c1frica-lugar de pretos\u201d racializa como menoridade; \u201c\u00c1frica-ancestralidade\u201d museifica; \u201c\u00c1frica-pobreza\u201d justifica desigualdades; \u201c\u00c1frica-n\u00e3o lugar\u201d legitima hierarquias. O que se discute aqui n\u00e3o \u00e9 o fato de as refer\u00eancias serem negativas ou positivas, verdadeiras ou falsas; o que se quer problematizar \u00e9 o uso pol\u00edtico que as instrumentaliza e a ideologia que as carrega.&nbsp;N\u00e3o seriam cru\u00e9is os usos sem\u00e2nticos reducionistas em prol de uma justificativa legitimadora das a\u00e7\u00f5es cometidas contra povos e territ\u00f3rios africanos? Ao que parece, a hist\u00f3ria j\u00e1 nos mostrou a que servem os reducionismos quando o assunto \u00e9 \u00c1frica: domina\u00e7\u00e3o e poder.<\/p>\n\n\n\n\n\t<figure data-size=\"medium\"\n\t\tclass=\"group space-y-2 data-[size=small]:w-[21rem] sm:data-[size=medium]:w-[40rem] lg:data-[size=small]:float-left lg:data-[size=small]:mr-8 mx-auto\">\n\t\t\t\t\t<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"445\" src=\"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-dev\/app\/uploads\/2025\/11\/ronaldo-lima-vieira-com-representante-do-governo-nigeriano-640x445.jpg\" class=\"group-data-[size=small]:w-[21rem] group-data-[size=small]:h-[29.75rem] sm:group-data-[size=medium]:w-[40rem] sm:group-data-[size=small]:h-[27.8125rem] lg:group-data-[size=medium]:h-[27.8125rem] group-data-[size=large]:w-full group-data-[size=large]:h-[9.875rem] md:group-data-[size=large]:h-[27.8125rem] rounded object-fill\" alt=\"\" \/>\t\t\t\t<div\n\t\t\tclass=\"group-data-[size=small]:w-[21rem] px-3 pt-3 pb-6 md:px-6 group-data-[size=small]:px-3 text-neutral-300 text-xs md:text-sm\">\n\t\t\t<figcaption title=\"O autor do artigo conversa com representante do governo da Nig\u00e9ria durante semin\u00e1rio sobre coopera\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica em agricultura\" class=\"block line-clamp-4 md:line-clamp-3\">\n\t\t\t\tO autor do artigo conversa com representante do governo da Nig\u00e9ria durante semin\u00e1rio sobre coopera\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica em agricultura\t\t\t<\/figcaption>\n\t\t\t<cite\n\t\t\t\tclass=\"relative block not-italic after:absolute after:left-0 after:right-0 after:-bottom-3 after:h-px after:bg-neutral-100\">\n\t\t\t\tFoto: Arquivo pessoal\t\t\t<\/cite>\n\t\t<\/div>\n\t<\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essas simplifica\u00e7\u00f5es s\u00e3o hist\u00f3ricas. Foram forjadas e ritualizadas para desqualificar africanos e seus descendentes (embora nem todos, mas a\u00ed \u00e9 t\u00f3pico para outra conversa), garantindo o uso social de um capital humano que sustentou o per\u00edodo colonial e suas continuidades. O colonialismo do poder dependeu da &#8220;convers\u00e3o&#8221; de diferen\u00e7as em desigualdades e de desigualdades em naturaliza\u00e7\u00f5es, da redu\u00e7\u00e3o fatorial sem\u00e2ntica de um continente megadiverso a um pa\u00eds sem organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, sem centro, sem c\u00e9rebro, sem nada: a \u201cfalta\u201d de \u00c1frica justificaria a tutela, o mando, a explora\u00e7\u00e3o. Esse repert\u00f3rio perdura porque foi escolarizado, midiatizado e institucionalizado \u2013 por isso, \u00e9 tarefa nossa desmont\u00e1-lo, ou ressignific\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A \u201c\u00c1frica\u201d tamb\u00e9m ocupa um espa\u00e7o simb\u00f3lico no imagin\u00e1rio nacional: ora aparece como espelho identit\u00e1rio, ora como alteridade distante, ora como mito de origem, ora como sin\u00f4nimo de exotismo, ora como lugar a ser explorado, ora como lugar de pobreza e mis\u00e9ria.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma r\u00e1pida busca pela internet mostra a recorr\u00eancia de uma rela\u00e7\u00e3o desejada pelo Brasil: o interesse brasileiro em criar mercado para produtos nacionais no continente africano. A \u00c1frica, em valores agregados, revela n\u00fameros impressionantes: o continente tem um PIB nominal estimado entre US$ 2,8 e 2,9 trilh\u00f5es, o que representa aproximadamente 2,5% da economia global. Sua popula\u00e7\u00e3o j\u00e1 ultrapassa 1,55 bilh\u00e3o de pessoas, quase 19% da popula\u00e7\u00e3o mundial, e projeta-se que alcance cerca de 4 bilh\u00f5es de habitantes at\u00e9 o fim do s\u00e9culo, quando se tornar\u00e1 um dos maiores mercados consumidores do planeta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No campo agr\u00edcola, embora apenas 6% das terras estejam ocupadas por culturas permanentes, a \u00c1frica concentra vastas \u00e1reas agricult\u00e1veis e j\u00e1 atraiu mais de 134 milh\u00f5es de hectares de investimentos estrangeiros na primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo 21. Al\u00e9m disso, o continente det\u00e9m cerca de 30% das reservas minerais globais e \u00e9 um dos maiores polos de produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo e g\u00e1s. Esses dados, desgra\u00e7adamente agregados, mostram que a \u00c1frica \u00e9 simultaneamente um gigante demogr\u00e1fico, um celeiro agr\u00edcola e um ator estrat\u00e9gico na geopol\u00edtica mundial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As cifras atuais e proje\u00e7\u00f5es futuras brilham os olhos de comerciantes, fabricantes e investidores, que veem ali um mercado de consumo e um espa\u00e7o de produ\u00e7\u00e3o de riqueza. Mas \u00e9 preciso lembrar que outros pa\u00edses tamb\u00e9m disputam essa fatia. Aprofundar rela\u00e7\u00f5es comerciais exige mais do que entusiasmo: requer habilidade para promover produtos e, sobretudo, para conhecer o fregu\u00eas. Ou seria melhor dizer, conhecer os fregueses? Afinal, n\u00e3o h\u00e1 um consumidor africano gen\u00e9rico, mas m\u00faltiplos p\u00fablicos, culturas e h\u00e1bitos de consumo. Sem esse conhecimento, o risco \u00e9 repetir redu\u00e7\u00f5es e perder oportunidades. Em verdade, \u00e9 preciso desagregar os dados.<\/p>\n\n\n\n\n\t<figure data-size=\"medium\"\n\t\tclass=\"group space-y-2 data-[size=small]:w-[21rem] sm:data-[size=medium]:w-[40rem] lg:data-[size=small]:float-left lg:data-[size=small]:mr-8 mx-auto\">\n\t\t\t\t\t<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"445\" src=\"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-dev\/app\/uploads\/2025\/11\/ronaldo-lima-vieira-com-filhos-e-amigos-em-bairro-de-abuja-640x445.jpg\" class=\"group-data-[size=small]:w-[21rem] group-data-[size=small]:h-[29.75rem] sm:group-data-[size=medium]:w-[40rem] sm:group-data-[size=small]:h-[27.8125rem] lg:group-data-[size=medium]:h-[27.8125rem] group-data-[size=large]:w-full group-data-[size=large]:h-[9.875rem] md:group-data-[size=large]:h-[27.8125rem] rounded object-fill\" alt=\"\" \/>\t\t\t\t<div\n\t\t\tclass=\"group-data-[size=small]:w-[21rem] px-3 pt-3 pb-6 md:px-6 group-data-[size=small]:px-3 text-neutral-300 text-xs md:text-sm\">\n\t\t\t<figcaption title=\"Ronaldo Lima Vieira com os filhos e amigos nigerianos em bairro de Abuja, capital da Nig\u00e9ria \" class=\"block line-clamp-4 md:line-clamp-3\">\n\t\t\t\tRonaldo Lima Vieira com os filhos e amigos nigerianos em bairro de Abuja, capital da Nig\u00e9ria \t\t\t<\/figcaption>\n\t\t\t<cite\n\t\t\t\tclass=\"relative block not-italic after:absolute after:left-0 after:right-0 after:-bottom-3 after:h-px after:bg-neutral-100\">\n\t\t\t\t\t\t\t<\/cite>\n\t\t<\/div>\n\t<\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os exemplos est\u00e3o no nosso vocabul\u00e1rio corrente: \u201cF\u00f3rum Brasil-\u00c1frica\u201d, \u201cReligi\u00e3o da \u00c1frica\u201d, \u201cRela\u00e7\u00f5es Brasil-\u00c1frica\u201d, \u201cMem\u00f3rias da \u00c1frica\u201d, \u201cDi\u00e1logos com a \u00c1frica\u201d, &#8220;D\u00edvida Hist\u00f3rica do Brasil com a \u00c1frica&#8221;. S\u00e3o t\u00edtulos \u00fateis, mas reducionistas. \u201cBrasil-\u00c1frica\u201d apaga que h\u00e1 muitos brasis e muitas \u00e1fricas; \u201cReligi\u00e3o da \u00c1frica\u201d mistura matrizes iorub\u00e1s, bantus e outras num bloco \u00fanico; \u201cRela\u00e7\u00f5es Brasil-\u00c1frica\u201d sugere um eixo bin\u00e1rio e desfaz regionalidades e agendas setoriais; \u201cMem\u00f3rias da \u00c1frica\u201d reduz e congela o continente num passado, muitas vezes m\u00edtico; \u201cDi\u00e1logos com a \u00c1frica\u201d invisibiliza quem dialoga com quem, sobre o qu\u00ea, e com quais institui\u00e7\u00f5es. \u00c9 poss\u00edvel nomear melhor sem perder a s\u00edntese: o acr\u00e9scimo de precis\u00e3o \u00e9, antes de tudo, um acr\u00e9scimo de respeito; a precis\u00e3o \u00e9 uma ferramenta preciosa para a efetividade brasileira nas intera\u00e7\u00f5es com diversos pa\u00edses africanos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ind\u00fastria cultural internacional tamb\u00e9m tem culpa nesse engodo do uso do termo &#8220;\u00c1frica&#8221;. Refor\u00e7ou e ainda refor\u00e7a essas naturaliza\u00e7\u00f5es reducionistas e imprecisas, deslocadas e preconceituosas. Hollywood construiu um imagin\u00e1rio em que \u00c1frica \u00e9 cen\u00e1rio de aventura, perigo, salvamento ou cat\u00e1strofe: pense em s\u00e9ries de explora\u00e7\u00e3o tipo <em>Indiana Jones<\/em>, em romances coloniais como <em>Out of Africa<\/em>, em narrativas de conflito e extra\u00e7\u00e3o como <em>Diamantes de sangue<\/em>, ou mesmo em anima\u00e7\u00f5es como o popular <em>O rei le\u00e3o<\/em>, que estetizam o \u201cselvagem\u201d. Ainda que alguns filmes tragam cr\u00edticas e tenham finalidades propositivas, o padr\u00e3o dominante reduz o continente a paisagens e dramas sem ag\u00eancia africana. Esses produtos culturais sedimentam, no senso comum, o atalho mental: \u201c\u00c1frica\u201d como pano de fundo, n\u00e3o como sujeito.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 poss\u00edvel nomear melhor sem perder a s\u00edntese: o acr\u00e9scimo de precis\u00e3o \u00e9, antes de tudo, um acr\u00e9scimo de respeito; a precis\u00e3o \u00e9 uma ferramenta preciosa para a efetividade brasileira nas intera\u00e7\u00f5es com diversos pa\u00edses africanos.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Proponho formas substitutivas e mais cuidadosas. Primeiro, distinguir \u201c\u00c1frica\u201d de \u201ccontinente africano\u201d: \u201c\u00c1frica\u201d pode remeter a uma constela\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e cultural ampla, enquanto \u201ccontinente africano\u201d delimita espa\u00e7o geopol\u00edtico; usar o segundo quando o tema \u00e9 territorialidade, institui\u00e7\u00f5es e integra\u00e7\u00e3o regional ajuda a evitar confus\u00f5es. Dizer \u201cpol\u00edticas no continente africano\u201d \u00e9 diferente de \u201cpol\u00edticas na \u00c1frica\u201d, que pode abranger dimens\u00f5es diasp\u00f3ricas, ou mesmo evocar est\u00e9ticas e hist\u00f3rias para al\u00e9m da geografia simb\u00f3lica e m\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo, nomear pa\u00edses e regi\u00f5es, em vez de subsumi-los sob um termo gen\u00e9rico. Em vez de \u201cparceria com a \u00c1frica\u201d, dizer \u201cparceria com Gana e Nig\u00e9ria no setor de energias limpas\u201d; no lugar de \u201cm\u00fasica africana\u201d, \u201csemba angolano, highlife gan\u00eas, afrobeat nigeriano, marrabenta mo\u00e7ambicana\u201d; em pol\u00edticas p\u00fablicas, falar de \u201ccoopera\u00e7\u00e3o com a \u00c1frica Austral\u201d ou \u201ccom a Comunidade Econ\u00f4mica dos Estados da \u00c1frica Ocidental\u201d, quando for o caso. Precis\u00e3o geogr\u00e1fica e cultural qualifica a conversa e impede reducionismos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Terceiro, adotar termos institucionais e hist\u00f3ricos apropriados: quando o assunto \u00e9 integra\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, falar em Uni\u00e3o Africana, Comunidades Econ\u00f4micas Regionais, panafricanismo, movimentos anticoloniais e de liberta\u00e7\u00e3o; quando se trata de identidades e matrizes culturais, reconhecer linhagens espec\u00edficas \u2013 iorub\u00e1, quicongo, kimbundu, ewe-fon \u2013 e suas reelabora\u00e7\u00f5es afro-brasileiras (Ketu, Angola, J\u00eaje, nag\u00f4), bem como religi\u00f5es de matriz africana no Brasil com seus nomes pr\u00f3prios (Candombl\u00e9, Umbanda, Batuque, Xang\u00f4) e contextos. Substituir \u201creligi\u00e3o africana\u201d por \u201creligi\u00e3o de matriz iorub\u00e1 no Rec\u00f4ncavo baiano\u201d, por exemplo, evita a invisibiliza\u00e7\u00e3o e a consequente confus\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ser mais preciso n\u00e3o \u00e9 pedantismo: \u00e9 compromisso. Quando cidad\u00e3os, estudantes, artistas, jornalistas, empres\u00e1rios, cientistas pol\u00edticos e at\u00e9 mesmo o presidente da Rep\u00fablica afinam a linguagem, fortalecem a imagina\u00e7\u00e3o p\u00fablica e abrem espa\u00e7o para rela\u00e7\u00f5es mais respons\u00e1veis entre n\u00f3s e os diversos povos africanos. Entre n\u00f3s e nossa negritude. Entre n\u00f3s e os diversos segmentos da nossa sociedade. Nomear bem \u00e9 reconhecer sujeitos, trajet\u00f3rias, institui\u00e7\u00f5es e projetos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Que neste Novembro Negro o gesto de dizer \u201c\u00c1frica\u201d venha acompanhado da delicadeza de se indagar: h\u00e1 ainda validade em tratar negritude e africanidade como sin\u00f4nimos? As formas antigas de pensar a \u00c1frica ainda nos servem, ou j\u00e1 \u00e9 hora de abrir os olhos e conhecer as realidades africanas em sua complexidade? Seria a p\u00e1tria ancestral do negro brasileiro um pa\u00eds chamado \u00c1frica? Conhecemos de fato os nossos fregueses africanos, ou apenas projetamos neles nossos desejos comerciais? E quando dizemos \u201c\u00c1frica\u201d no Brasil, estamos falando de quem \u2013 e para quem?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">*<em>Ronaldo Lima Vieira \u00e9 diplomata de carreira. Graduado em Letras pela Universidade Federal de Uberl\u00e2ndia e em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais pela Birkbeck University of London e mestre em Lingu\u00edstica pela Universidade de Bras\u00edlia e em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais pelo Instituto Rio Branco. Atualmente, desenvolve pesquisas sobre rela\u00e7\u00f5es bilaterais&nbsp;Brasil-Nig\u00e9ria.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"featured_media":13792,"template":"","class_list":["post-13785","news","type-news","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-dev\/wp-json\/wp\/v2\/news\/13785","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-dev\/wp-json\/wp\/v2\/news"}],"about":[{"href":"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-dev\/wp-json\/wp\/v2\/types\/news"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-dev\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13792"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-dev\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13785"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}