{"id":15426,"date":"2025-03-28T12:20:00","date_gmt":"2025-03-28T15:20:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufmg.br\/?post_type=news&#038;p=15426"},"modified":"2025-12-16T18:04:02","modified_gmt":"2025-12-16T21:04:02","slug":"um-descompassado-sentido-de-modernidade","status":"publish","type":"news","link":"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-dev\/comunicacao\/noticias\/opiniao\/um-descompassado-sentido-de-modernidade\/","title":{"rendered":"Um descompassado sentido de modernidade"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Belo Horizonte, 2049. Sobrevoo o eixo da avenida longa, partindo dos vest\u00edgios de escarpas assim\u00e9tricas, no limite sul da cidade. Outros ve\u00edculos cruzam meu tra\u00e7ado, em rotas calculadas pelas intelig\u00eancias artificiais que nos controlam, enquanto pairo \u00e0 meia altura \u2013 em voo de p\u00e1ssaro, diriam no Oitocentos \u2013 pr\u00f3ximo o bastante da superf\u00edcie para me possibilitar identificar pessoas que apressadamente cruzam vazios retil\u00edneos, naquilo que um dia foram ruas. Por todo lado, vejo massas constru\u00eddas indistintas, identific\u00e1veis apenas pelos dizeres luminosos: \u201cBeba Coca-cola!&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Busco sem sucesso algum neon que indique \u201cPadaria Savassi\u201d, que, pelas coordenadas, deveria estar ali; desconfio da precis\u00e3o de minha mem\u00f3ria ou de minha vista, jamais dos instrumentos. Sigo adiante por uma antiga alameda cercada por constru\u00e7\u00f5es de linhas cl\u00e1ssicas apagadas pela ru\u00edna, a natureza (felizmente) ainda resiliente. Onde as fachadas s\u00e3o ainda vistas, porcelanatos se descolam como papel contact, sombras falsas de materiais naturais. Sobrevoo uma igreja e sua pra\u00e7a; diante dela outra pra\u00e7a e outra pra\u00e7a, ladeadas por uma sequ\u00eancia de arranha-c\u00e9us que competem em altura com o templo; suas torres foram vencidas. Um aparente respiro verde na paisagem: dizem que o parque um dia foi grande e abrigou animais silvestres na cidade que chamavam de \u201cvergel\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Chego a meu destino. Os luminosos que me perseguiram por quase todo o caminho n\u00e3o me ofuscam a vista, os leds antigos j\u00e1 esmaecidos, sinais da supostamente avan\u00e7ada tecnologia que um dia foram. Apenas o duro gnaisse do obelisco ao centro sobrevive, incorrupt\u00edvel no tempo. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Poderia tal distopia ser realidade em nossa cidade? A julgar pelas possibilidades tecnol\u00f3gicas que a cidade sempre abra\u00e7ou, talvez sim. A julgar pelas vis\u00f5es avessas da modernidade, certamente. N\u00e3o tratarei da primeira, posto que n\u00e3o sou especialista; interessa-me aqui apontar o quanto a capital mineira, fundada sob a \u00e9gide da liberdade republicana, desenhou para si faces diversas ao longo de sua hist\u00f3ria, e o quanto dessas podemos ainda ver, longe de nossos sobrevoos imagin\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Belo Horizonte, dir\u00e1 minha cara colega de Departamento, professora Celina Borges Lemos, nasce moderna e sistematicamente esfor\u00e7a-se por espelhar essa modernidade abra\u00e7ando novas faces em seus edif\u00edcios. Nos tempos da cidade nascente, erguida sob as linhas ecl\u00e9ticas, desconstr\u00f3i o Curral del Rei, pequeno arraial de papudos que viviam em casas de pau&nbsp;a&nbsp;pique. O esfor\u00e7o da reconstru\u00e7\u00e3o dessa mem\u00f3ria apagada vem sendo empreendido por diversos pesquisadores, como Adriane Garcia, autora de&nbsp;<em>Arraial do Curral del Rei: a desmem\u00f3ria dos bois<\/em>, apoiados no fundamental trabalho do Arquivo P\u00fablico da Cidade de salvaguarda dos documentos que nos propiciam&nbsp;fazer aflorar nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os fren\u00e9ticos anos 1930 viram surgir cinemas e arranha-c\u00e9us, com elementos geom\u00e9tricos que aspiravam racionalidade e respiravam p\u00f3&nbsp;de&nbsp;pedra. Ainda menina, Beag\u00e1 dan\u00e7a ao sabor das sinuosas linhas&nbsp;<em>niemeyerianas,&nbsp;<\/em>e os arquitetos da nova Escola \u2013 fundada em 1930, sua nova sede foi finalizada em 1949 \u2013 se empenharam em dar novo e moderno car\u00e1ter \u00e0 urbe: Edif\u00edcio Clemente de Faria (1946-1950, de \u00c1lvaro Vital Brasil, premiado na 1\u00aa Bienal de Arquitetura de S\u00e3o Paulo-1951),&nbsp;Edif\u00edcio Bemge (1953, projeto de Oscar Niemeyer),&nbsp;Edif\u00edcio Joaquim de Paula (projetado por Ulpiano Nunes&nbsp;Muniz entre 1955 e 1959), Edif\u00edcio Helena Passig (obra de Raphael Hardy Filho, datada de 1957).<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tampouco rememoro uma Belo Horizonte que n\u00e3o vivi. Aceito as camadas da hist\u00f3ria, resiliente com o fato de que elas s\u00e3o o retrato da cidade. Mas isso, acredito, \u00e9 o que a cidade at\u00e9 aqui desejou ser, e essa vis\u00e3o progressista, desmesurada e descabida hoje n\u00e3o mais ecoa em todas as vozes que falam da cidade.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se por um lado fizeram erguer edif\u00edcios exemplares de nossa arquitetura \u2013 me ative aos exemplos na Pra\u00e7a 7, aos quais se agregam a Antiga Sede do Banco Hipotec\u00e1rio e Agr\u00edcola (de Luiz Olivieri, inaugurado em 1922) e o Cine Theatro Brasil (inaugurado em 1932, projeto de Alberto Murgel) \u2013, por outro, abriram caminho para uma vertiginosa transforma\u00e7\u00e3o da paisagem, resultado da din\u00e2mica especulativa sobre o solo acentuada com o dito \u201cmilagre econ\u00f4mico\u201d dos anos 1970, que deu continuidade ao sistem\u00e1tico processo de constru\u00e7\u00e3o-demoli\u00e7\u00e3o-reconstru\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, o arquiteto belo-horizontino Carlos Teixeira analisa: \u201cN\u00e3o tenho a menor inten\u00e7\u00e3o de relembrar a Belo Horizonte id\u00edlica de Aar\u00e3o Reis. Aquela cidade n\u00e3o existe mais; jaz sob o tecido ca\u00f3tico de uma cidade que partiu do nada, explodiu metr\u00f3pole em 100 anos e ignorou todas as boas inten\u00e7\u00f5es de seu plano original\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tampouco rememoro uma Belo Horizonte que n\u00e3o vivi. Aceito as camadas da hist\u00f3ria, resiliente com o fato de que elas s\u00e3o o retrato da cidade. Mas isso, acredito, \u00e9 o que a cidade at\u00e9 aqui desejou ser, e essa vis\u00e3o progressista, desmesurada e descabida hoje n\u00e3o mais ecoa em todas as vozes que falam da cidade \u2013 e a Universidade, em sua composi\u00e7\u00e3o diversa e democr\u00e1tica, \u00e9 uma delas. E essas vozes n\u00e3o se calam, com o risco de, em um futuro bem pr\u00f3ximo, voltarmos ao primeiro par\u00e1grafo deste texto, em uma cont\u00ednua autofagia de nossas cria\u00e7\u00f5es versadas para um futuro que sempre ser\u00e1 corro\u00eddo, em um \u201ccen\u00e1rio citadino com o estilo das coisas que n\u00e3o t\u00eam estilo\u201d, como bem disse a professora Helo\u00edsa Starling em artigo publicado pela revista Margens sobre as fantasmagorias na cidade.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A n\u00f3s, arquitetos, essa eterna reconstru\u00e7\u00e3o tem nos custado caro. Incr\u00edveis planejadores das novas formas, somos ao mesmo tempo algozes e v\u00edtimas desse processo. O que hoje projetamos, amanh\u00e3 ser\u00e1 apagado, e essa \u00e9 uma perigosa sina.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A n\u00f3s, coletividade, essa reconstru\u00e7\u00e3o tem nos custado igualmente caro. Seu enfrentamento come\u00e7ou a ser empreendido em 1984, em um esfor\u00e7o coletivo de preserva\u00e7\u00e3o, por meio da representa\u00e7\u00e3o dos v\u00e1rios setores da sociedade e dos institutos p\u00fablicos no Conselho Deliberativo do Patrim\u00f4nio Cultural do Munic\u00edpio. Esses 40 anos de intensas e dedicadas atividades de t\u00e9cnicos e conselheiros foram fundamentais para outra constru\u00e7\u00e3o: a compreens\u00e3o daquilo que entendemos ser a imagem de n\u00f3s mesmos, por meio daquilo que constru\u00edmos ao longo de nossa breve hist\u00f3ria de 127 anos. Ao menos do que dela restou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A n\u00f3s, arquitetos, essa eterna reconstru\u00e7\u00e3o tem nos custado caro. Incr\u00edveis planejadores das novas formas, somos ao mesmo tempo algozes e v\u00edtimas desse processo.&nbsp;O que hoje projetamos, amanh\u00e3 ser\u00e1 apagado, e essa \u00e9 uma perigosa sina.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Atenta aos riscos de transforma\u00e7\u00e3o em nossa paisagem e de desconstru\u00e7\u00e3o de nosso patrim\u00f4nio cultural,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.arq.ufmg.br\/ea\/mocao-da-congregacao-da-escola-de-arquitetura-da-ufmg\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">a Egr\u00e9gia Congrega\u00e7\u00e3o da Escola de Arquitetura da UFMG publicou, em 18 de mar\u00e7o, mo\u00e7\u00e3o de rep\u00fadio<\/a>\u00a0\u00e0 Lei n\u00ba 11.828, de 7 de mar\u00e7o de 2025, que altera o C\u00f3digo de Posturas do Munic\u00edpio (Lei n\u00ba 8.616\/03) e cria a \u00c1rea de Promo\u00e7\u00e3o da Cidade \u2013  Pra\u00e7a Sete de Setembro, autorizando a instala\u00e7\u00e3o de grandes engenhos de publicidade luminosos no centro de Belo Horizonte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se aplicada, a lei permitir\u00e1 que outdoors luminosos de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o \u2013 n\u00e3o se engane o desavisado leitor, a tecnologia rapidamente cair\u00e1 em obsolesc\u00eancia \u2013 sejam sobrepostos \u00e0s fachadas das edifica\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, redesenhando n\u00e3o apenas sua face, mas a imagem do lugar, destituindo-o de seus valores simb\u00f3licos.&nbsp;A pra\u00e7a, democr\u00e1tica como deve ser todo e qualquer espa\u00e7o p\u00fablico urbano, am\u00e1lgama da diversidade em manifesta\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, de lazer e esporte, lugar da festa e do encontro para o historiador franc\u00eas Jacques Le Goff, ceder\u00e1 espa\u00e7o ao privado, ao especulativo, a um descompassado sentido de modernidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apenas o duro incorrupt\u00edvel gnaisse do obelisco sobreviver\u00e1?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"featured_media":15427,"template":"","class_list":["post-15426","news","type-news","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-dev\/wp-json\/wp\/v2\/news\/15426","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-dev\/wp-json\/wp\/v2\/news"}],"about":[{"href":"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-dev\/wp-json\/wp\/v2\/types\/news"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-dev\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15427"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-dev\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15426"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}