{"id":20098,"date":"2026-04-23T08:22:00","date_gmt":"2026-04-23T11:22:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufmg.br\/?post_type=news&#038;p=20098"},"modified":"2026-04-24T09:24:54","modified_gmt":"2026-04-24T12:24:54","slug":"ler-e-construir-sentidos-por-que-formar-leitores-e-mais-importante-do-que-vender-livros","status":"publish","type":"news","link":"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-dev\/comunicacao\/noticias\/opiniao\/ler-e-construir-sentidos-por-que-formar-leitores-e-mais-importante-do-que-vender-livros\/","title":{"rendered":"Ler \u00e9 construir sentidos: por que formar leitores \u00e9 mais importante do que vender livros"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Neste 23 de abril, celebra-se o Dia Mundial do Livro e dos Direitos Autorais, institu\u00eddo pela Unesco como forma de reconhecer o papel dos livros na vida das pessoas e de reafirmar seu valor como ponte entre gera\u00e7\u00f5es, culturas e modos de ver o mundo. Mais do que celebrar o objeto livro, essa data nos convoca a refletir sobre a leitura como pr\u00e1tica social, cultural e formativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No campo da educa\u00e7\u00e3o, especialmente na forma\u00e7\u00e3o de leitores liter\u00e1rios, a leitura \u00e9 compreendida como um processo que ultrapassa o dom\u00ednio de habilidades t\u00e9cnicas. Envolve experi\u00eancia est\u00e9tica, constru\u00e7\u00e3o de sentidos e inser\u00e7\u00e3o em pr\u00e1ticas culturais compartilhadas, nas quais os sujeitos interpretam, significam e narram o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pesquisas desenvolvidas no \u00e2mbito da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica e da forma\u00e7\u00e3o docente t\u00eam evidenciado a centralidade da media\u00e7\u00e3o na constitui\u00e7\u00e3o do leitor, seja em sala de aula, em bibliotecas escolares ou em espa\u00e7os como clubes de leitura. Esses estudos mostram que a forma\u00e7\u00e3o do leitor depende de condi\u00e7\u00f5es concretas de acesso ao livro, de pr\u00e1ticas sistem\u00e1ticas de leitura e da presen\u00e7a de mediadores qualificados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse contexto, os dados recentemente divulgados pela pesquisa <em>Panorama do consumo de livros<\/em>, da C\u00e2mara Brasileira do Livro, realizada em parceria com a Nielsen BookData, merecem aten\u00e7\u00e3o. O estudo indica que 18% da popula\u00e7\u00e3o brasileira adulta comprou ao menos um livro no \u00faltimo ano, o que representa cerca de 3 milh\u00f5es de novos consumidores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 um dado relevante, mas que precisa ser problematizado.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ler n\u00e3o \u00e9 apenas acessar textos, mas construir sentidos, elaborar experi\u00eancias e inscrever-se no mundo como sujeito de linguagem.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pesquisa se volta ao comportamento de consumo: quem compra livros, como compra, por onde compra. Trata-se de um recorte importante para o setor editorial, mas insuficiente para compreender a forma\u00e7\u00e3o do leitor. Comprar um livro n\u00e3o equivale, necessariamente, a ler, e menos ainda a se constituir leitor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Formar leitores, especialmente leitores liter\u00e1rios, \u00e9 um processo complexo, que envolve tempo, experi\u00eancia, media\u00e7\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o de sentidos. Ler n\u00e3o \u00e9 apenas acessar textos, mas construir sentidos, elaborar experi\u00eancias e inscrever-se no mundo como sujeito de linguagem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa perspectiva dialoga com Paulo Freire, ao sustentar que a leitura da palavra est\u00e1 intrinsecamente ligada \u00e0 leitura do mundo, e com Antonio Candido, que reconhece a literatura como direito humano fundamental, capaz de ampliar a sensibilidade, organizar a experi\u00eancia e contribuir para a forma\u00e7\u00e3o dos sujeitos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse horizonte, ganha relev\u00e2ncia a no\u00e7\u00e3o de soberania imaginativa, entendida como a capacidade de os sujeitos produzirem imagens pr\u00f3prias de si, do outro e do mundo, afirmando sua presen\u00e7a simb\u00f3lica e sua possibilidade de narrar a pr\u00f3pria experi\u00eancia. Em um contexto marcado por disputas simb\u00f3licas e por processos de homogeneiza\u00e7\u00e3o cultural, formar leitores implica garantir condi\u00e7\u00f5es para que possam imaginar, narrar e reinventar suas experi\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 ele [o professor] quem realiza a media\u00e7\u00e3o da leitura, criando condi\u00e7\u00f5es para que o livro deixe de ser objeto e se torne experi\u00eancia. Sem essa media\u00e7\u00e3o, o livro pode circular, mas n\u00e3o necessariamente forma leitores.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os dados da pr\u00f3pria pesquisa evidenciam que o acesso ao livro ainda \u00e9 atravessado por desigualdades. Parte significativa da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o adquire livros por aus\u00eancia de livrarias pr\u00f3ximas ou pelo custo dos exemplares. Ao mesmo tempo, cresce o acesso por meios digitais, muitas vezes associado \u00e0 circula\u00e7\u00e3o gratuita de arquivos. Esse pode ser um sinal de uma demanda por leitura que nem sempre se converte em consumo formal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O digital tem grande impacto e amplia possibilidades, mas n\u00e3o resolve a quest\u00e3o central. O acesso, por si s\u00f3, n\u00e3o garante a forma\u00e7\u00e3o do leitor. Ler exige media\u00e7\u00e3o: processos de apresenta\u00e7\u00e3o, acompanhamento e constru\u00e7\u00e3o compartilhada de sentidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse processo, o papel do professor \u00e9 decisivo. \u00c9 ele quem realiza a media\u00e7\u00e3o da leitura, criando condi\u00e7\u00f5es para que o livro deixe de ser objeto e se torne experi\u00eancia. Sem essa media\u00e7\u00e3o, o livro pode circular, mas n\u00e3o necessariamente forma leitores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 nesse ponto que pol\u00edticas p\u00fablicas assumem um papel estruturante. Iniciativas como o programa MEC Livros s\u00e3o fundamentais n\u00e3o apenas para ampliar o acesso, mas para sustentar pr\u00e1ticas de leitura nas escolas, fortalecer bibliotecas e garantir condi\u00e7\u00f5es materiais e pedag\u00f3gicas para a forma\u00e7\u00e3o do leitor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m \u00e9 fundamental assegurar a diversidade de narrativas. Como aponta a escritora Chimamanda Ngozi Adichie, o risco de uma hist\u00f3ria \u00fanica est\u00e1 na redu\u00e7\u00e3o das experi\u00eancias humanas a uma \u00fanica perspectiva. Garantir o acesso a m\u00faltiplas vozes \u00e9 condi\u00e7\u00e3o para uma forma\u00e7\u00e3o leitora cr\u00edtica e plural.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diante desse cen\u00e1rio, talvez seja necess\u00e1rio deslocar o foco. Mais do que quantos livros s\u00e3o vendidos, importa compreender que leitores est\u00e3o sendo formados, em que condi\u00e7\u00f5es e com quais possibilidades de experi\u00eancia e imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Celebrar o livro \u00e9 muito importante. Mas \u00e9 ainda mais urgente afirmar a leitura como direito, como experi\u00eancia e como pr\u00e1tica formativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No limite, n\u00e3o se trata apenas de ler livros. Trata-se de formar sujeitos capazes de ler o mundo e de escrev\u00ea-lo de outras maneiras, afirmando sua voz, sua imagina\u00e7\u00e3o e sua presen\u00e7a na vida social.<\/p>\n\n\n<section class=\"space-y-1 lg:px-8\">\n  <h3 class=\"text-lg font-semibold\">\n    Not\u00edcias relacionadas:\n  <\/h3>\n      <a class=\"flex gap-2 items-center text-[1.25rem]\" href=\"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-dev\/comunicacao\/noticias\/arte-e-cultura\/celebracao-a-mulher-negra-radio-ufmg-educativa-veicula-leitura-de-ursula-de-maria-firmina-dos-reis\/\">\n      <i class=\"ti ti-corner-down-right\"><\/i>\n      <div class=\"pt-[0.4375rem]\">\n        <h4 class=\"text-lg font-normal text-neutral-500 line-clamp-2\">\n          <span class=\"text-primary-300 text-sm uppercase\">\n            Arte e Cultura          <\/span>\n          Celebra\u00e7\u00e3o \u00e0 mulher negra: R\u00e1dio UFMG Educativa veicula leitura de \u2018\u00darsula\u2019, de Maria Firmina dos Reis        <\/h4>\n        <p class=\"text-sm text-neutral-300 line-clamp-2\">\n          O Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de mar\u00e7o, ser\u00e1 especial na UFMG Educativa: a emissora veicula, a partir das 11h de domingo, uma leitura coletiva do livro \u00darsula, da escritora Maria Firmina dos Reis. 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Para auxiliar na escolha das obras, o setor recebe, at\u00e9 o final de [&hellip;]        <\/p>\n      <\/div>\n    <\/a>\n  <\/section>","protected":false},"featured_media":20099,"template":"","class_list":["post-20098","news","type-news","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-dev\/wp-json\/wp\/v2\/news\/20098","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-dev\/wp-json\/wp\/v2\/news"}],"about":[{"href":"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-dev\/wp-json\/wp\/v2\/types\/news"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-dev\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20099"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-dev\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20098"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}