Estudo encontra diferenças no consumo de álcool associado à depressão em homens e mulheres
Com base em dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), análise feita por pesquisadores da UFMG e de outras instituições indicam a necessidade de abordagens específicas de gênero
Com Assessoria de Comunicação da Escola de Enfermagem
Estudo recém-publicado no American Journal of Health Promotion mostrou que tratamentos relacionados a questões de saúde mental e ao consumo de álcool precisam considerar o gênero dos pacientes. A pesquisa, que encontrou diferenças nos padrões de comportamento de consumo de álcool associado à depressão em homens e mulheres, foi feita em conjunto pela Escola de Enfermagem da UFMG, pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), pela Universidade Federal de Pelotas (Ufpel) e pelo Ministério da Saúde.
A investigação foi realizada por meio da análise de subamostra de dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), composta por mais de 88 mil pessoas com mais de 18 anos, que forneceram informações sobre depressão e consumo de álcool. A análise das informações mostrou associação significativa entre o consumo excessivo de álcool em uma única ocasião (cinco doses ou mais para homens e quatro doses ou mais para mulheres, relatadas por cerca de 40% da população) e a depressão, especialmente nas mulheres.
Também foi observada relação entre situações em que o uso de álcool trouxe algum tipo de comprometimento, como problemas em casa ou absenteísmo no trabalho ou escola. Tais problemas foram relatados por 5% da população. Além disso, quase 10% da amostra do estudo relatou já ter perdido a consciência devido ao consumo de álcool em excesso. Esses episódios estão relacionados à presença de depressão tanto em homens quanto em mulheres.
A pesquisadora Thaís Cristina Marquezine, pós-doutoranda no Programa de Pós-graduação em Nutrição e Saúde da Escola de Enfermagem da UFMG, explica que a depressão é um transtorno de saúde mental comum e debilitante que pode ser duradouro ou recorrente, além de prejudicar a capacidade do indivíduo de desempenhar as atividades da vida diária. Ela acrescenta que o álcool é frequentemente usado como mecanismo de enfrentamento da depressão e outros transtornos de saúde mental, mas é uma substância psicoativa com efeitos negativos bem documentados na saúde, na sociedade e na economia.
“Considerando a relação bidirecional entre o consumo de álcool e os transtornos depressivos, e sua relevante carga no Brasil, é crucial compreender a associação entre depressão e comportamentos de consumo de álcool para elucidar as diferenças entre os sexos nessa associação na população. Ao abordar essa interseção, o estudo busca fornecer uma compreensão valiosa para o desenvolvimento de estratégias direcionadas de prevenção e intervenção”, diz.
Rastreando a depressão
A pesquisadora explicou que a presença de depressão foi avaliada por meio do Patient Health Questionnaire-9 (PHQ9), questionário com nove perguntas que rastreia a presença de sintomas depressivos nas últimas duas semanas. “O questionário identifica a depressão maior ou transtorno depressivo maior com base nos sintomas de humor deprimido, anedonia, distúrbios do sono, fadiga, alterações no apetite ou no peso, sentimento de culpa ou inutilidade, dificuldades de concentração, alterações psicomotoras e pensamentos de automutilação.”
Os indicadores de consumo de álcool da pesquisa compreenderam o consumo excessivo de álcool em uma única ocasião, situações em que o uso da substância trouxe algum tipo de comprometimento e desmaios. Tais dados foram calculados com base na população que relatou o consumo do álcool, independentemente da frequência e da quantidade. Também foram incluídas características sociodemográficas como gênero, faixa etária, escolaridade, renda e presença de companheiro, companheira ou cônjuge.
Em relação à análise da interação entre gênero e depressão associado ao comportamento de consumo de álcool, o estudo mostrou resultados significativos apenas para situações em que o uso da bebida trouxe algum tipo de comprometimento, e os homens apresentaram maior risco do que as mulheres. Thaís Marquezine entende que há, na sociedade, fatores que podem explicar o risco aumentado para os homens. “Reconhece-se que os homens apresentam menor tendência a buscar tratamento psicológico e psiquiátrico, pois podem ter dificuldade em reconhecer e comunicar sintomas de depressão. Além disso, as normas masculinas e os padrões de masculinidade podem inibir a busca por ajuda e reforçar estilos de enfrentamento desadaptativos, como o consumo de álcool.”
A pesquisadora ressalta a necessidade de aprofundar as investigações de diferenças relacionadas ao consumo de álcool entre homens e mulheres e suas consequências para a saúde. “Historicamente, as campanhas preventivas têm como alvo principal a população masculina, visto que o consumo de álcool era mais prevalente entre eles. No entanto, com o aumento do consumo entre as mulheres, é essencial adotar estratégias que abordem os impactos específicos do álcool em sua saúde. Esses resultados enfatizam a necessidade de abordagens específicas de gênero para lidar com questões de saúde mental e consumo de álcool”, conclui.
O estudo foi coordenado pela professora Taciana Maia, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Além de Thaís Cristina Marquezine, também participaram o professor Rafael Moreira Claro, do Departamento de Nutrição da Escola de Enfermagem da UFMG, e a nutricionista Luiza Eunice Sá da Silva.
Artigo: Depression and alcohol drinking behavior: association and sex differences among brazilian adults
Autores: Thaís Cristina Marquezine Caldeira, Luiza Eunice Sá da Silva, Paula Carvalho de Freitas, Rafael Moreira Claro, Taciana Maia
Publicado no American Journal of Health Promotion e disponível on-line.
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