Universidades latino-americanas articulam saber e ação para impulsionar bioeconomia
Em painel da Latin America Universities Summit, especialistas indicam soluções sustentáveis para transformar desafios ambientais em oportunidades de desenvolvimento
Por Matheus Espíndola
O modo como as universidades do continente podem liderar a transição para modelos econômicos sustentáveis, face aos desafios climáticos e à urgência em transformar conhecimento científico em impacto real, norteou as discussões do painel Proteção e progresso: promovendo uma bioeconomia sustentável na América Latina, nesta quarta-feira, dia 9. A atividade integrou a programação do Latin America Universities Summit, promovido pela agência britânica Times Higher Education (THE), e reuniu, no auditório do CAD 2, o vice-reitor Alessandro Fernandes Moreira, a decana do campus Guayaquil da Universidad Ecotec (Equador), Gilda Alcívar García, e a vice-presidente acadêmica da Universidad de los Andes (Colômbia), Silvia Caro.
Para Alessandro Fernandes, as atuais questões ambientais e sociais demandam currículos acadêmicos que unam conhecimento técnico e visão humanística. “Eu me formei no século 20 e dou aula neste – o mundo mudou completamente. Precisamos de currículos flexíveis. Nesse contexto, sustentabilidade não pode ser só uma disciplina, mas uma mentalidade que deve atravessar a graduação e a pós-graduação”, enfatizou.
De acordo com o professor, 95% das pesquisas na América Latina ocorrem nas universidades, mas ainda há pouca articulação para que esse conhecimento chegue ao mercado. Alessandro Fernandes destacou iniciativas da UFMG como o programa Faço parte, integrado ao projeto UFMG Sustentável, que estimula desde atitudes cotidianas de economia de energia até grandes soluções tecnológicas. O gestor também mencionou o Projeto Oásis, cujo objetivo é gerar energia limpa, combinando painéis fotovoltaicos e turbinas, com vistas a alcançar a autossuficiência energética no campus. “Queremos que isso impacte também o comportamento das pessoas. O conceito de sustentabilidade inclui apagar a luz no laboratório e repensar hábitos em casa”, ilustrou.
Experiências no continente
Gilda Alcívar relatou a experiência da Universidad Ecotec, no Equador, que, segundo ela, tem priorizado esforços para se tornar referência em gestão ambiental. “Há 18 anos, percebemos que era necessário mudar a forma de atuação da nossa instituição. A partir de então, a sustentabilidade deixou de ser apenas um tema acadêmico e foi incorporada como parte de toda nossa operação”, relatou.
A Ecotec, de acordo com a decana, foi a primeira universidade do continente a obter verificação oficial de neutralidade de carbono. Entre as ações empreendidas na instituição estão o uso de energia solar em seus prédios e a compostagem de resíduos. Também passaram a integrar o currículo acadêmico disciplinas específicas sobre ecologia e sustentabilidade – especialmente no curso de Arquitetura, área que a professora considera fundamental para a concepção de iniciativas que visem à redução de impactos ambientais.
Gilda Alcívar relatou o caso de um campus da Ecotec que fica próximo a um rio contaminado. Sem apoio financeiro externo, a instituição decidiu bancar a pesquisa e a execução do seu projeto de revitalização. “Ninguém quis investir, mas resolvemos fazer mesmo assim. Três anos depois, temos resultados concretos: a água está menos poluída, e comunidades ribeirinhas foram beneficiadas”, contou. O sucesso chamou a atenção do Ministério do Meio Ambiente equatoriano. “Às vezes, costuma ser difícil atrair investimentos em sustentabilidade, quando existem problemas mais visíveis na sociedade”, observou.
No caso da Colômbia, Silvia Caro mencionou projetos de bioeconomia em desenvolvimento em sua universidade e em redes regionais, como o aproveitamento do resíduo do caju para biomassa, a substituição de fertilizantes químicos por bactérias, a produção de dispositivos biomédicos sustentáveis, além de novas técnicas de captura de carbono. “Tudo isso reduz o impacto ambiental e, ao mesmo tempo, gera receita para as comunidades”, explicou.
A professora lembrou ainda que, em seu país, há pressões econômicas para avançar rapidamente em produtos da bioeconomia. “O governo fala em ter resultados comerciais em cinco anos, mas é improvável que isso aconteça se não houver mais financiamento e parcerias internacionais”, alertou. Para Silvia Caro, a bioeconomia constitui significativa oportunidade para a América Latina, mas ainda prevalecem obstáculos estruturais. “Para chegarmos ao patamar da União Europeia, precisamos construir redes regionais fortes, com apoio de políticas públicas”, disse. Segundo a vice-presidente da Universidad de los Andes, apenas 10% dos estudantes universitários colombianos têm alguma expertise em bioeconomia. “A sustentabilidade precisa ser a espinha dorsal dos currículos – e não algo periférico. Hoje, é necessário formar profissionais para funções que há poucos anos nem existiam, como diretorias de sustentabilidade nas empresas”, observou.
Pensar grande
Para os participantes do painel, as universidades são dotadas de ferramentas que as credenciam a liderar mudanças reais na questão ambiental. “A academia deve comunicar a ciência em linguagem acessível e envolver áreas como antropologia e sociologia para engajar comunidades”, propôs Silvia Caro. Gilda Alcívar, por sua vez, sublinhou a importância das universidades como canais de diálogo com a sociedade: “Precisamos ser porta-vozes desses assuntos na mídia. As pessoas pensam que os problemas ambientais são grandes demais para serem resolvidos. Podemos mostrar que há soluções viáveis.”
Alessandro Fernandes defendeu a importância da integração de disciplinas. “Estamos lidando com inteligência artificial, energias renováveis, educação digital, e tudo isso precisa estar conectado. Precisamos pensar em sistemas integrados para resolver os problemas ambientais.” Na avaliação do vice-reitor da UFMG, “pensar grande” é essencial. “Vamos trabalhar juntos para salvar o mundo. E isso começa dentro da universidade”, concluiu.
O evento, que termina nesta quinta-feira, dia 10, ocorre pela primeira vez em território brasileiro, reunindo cerca de 250 delegados institucionais de universidades e centros de pesquisa de todo o mundo. Esta edição conta com representantes de 22 países – África do Sul, Argentina, Brasil, Canadá, Chile, China, Colômbia, Equador, Estados Unidos, Índia, Jamaica, México, Nigéria, Panamá, Paraguai, Peru, Reino Unido, República Democrática do Congo, Rússia, Trinidad e Tobago, Uruguai e Venezuela – e cerca de 60 reitores, vice-reitores e pró-reitores de universidades de destaque na América Latina e em outros continentes.
Criada em 2016, a cúpula latino-americana da THE já passou por instituições como a Pontifícia Universidad Católica de Chile, a Universidad del Rosario, na Colômbia, o Tecnológico de Monterrey, no México, a Universidad Técnica Particular de Loja, no Equador, além da Universidade de São Paulo (USP) – que sediou a edição de 2021 em modo remoto, por conta da pandemia.
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