Brasil quer IA que mitigue apartheid tecnológico, afirma diretor do MCTI
Hugo Valadares destacou viés social do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial 2024-2028, apresentado nesta quinta, 11, em seminário
Por Ewerton Martins Ribeiro
“Como defende a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, minha chefe, não interessa ao Brasil produzir uma tecnologia que fique na mão de poucas pessoas, para que elas ganhem muito dinheiro, e a gente continue com o atual apartheid tecnológico. O que a gente busca é uma direção que traga melhoria de vida para todo mundo. Por exemplo, temos de aumentar a produtividade, mas tendo em vista uma melhoria de vida para as pessoas e para o trabalhador. Aumentar a produtividade por si só, apenas para gerar mais ganho de dinheiro para os mesmos, não nos interessa.”
Sob essa perspectiva social, o diretor do Departamento de Ciência, Tecnologia e Inovação Digital (DECTI) do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Hugo Valadares, apresentou o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) 2024-2028 à comunidade da UFMG na noite desta quinta-feira, 11, no seminário Inteligência artificial, ética e Universidade, realizado no auditório da Reitoria. Durante todo o dia, especialistas discutiram formas de integrar a tecnologia da inteligência artificial às práticas acadêmicas e administrativas da UFMG de forma responsável.
A palestra do diretor do MCTI encerrou o evento. “Não é à toa que o plano tem nome e sobrenome: ‘IA para o bem de todos’”, demarcou Hugo, reiterando o viés social do plano, que está disponível na íntegra no site do governo.
Meta é ser referência mundial
Hugo Valadares afirmou que o PBIA foi desenvolvido por meio de um processo inclusivo, com a participação de representantes de mais de cem instituições públicas, privadas e da sociedade civil, além de membros do Conselho Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (CCT), de instituições de Tecnologia da Informação do governo e de órgãos de controle. “Antes do plano, o que discutimos foi qual seria a estratégia brasileira para a IA. Só então produzimos um plano com metas, quantidade de ações e detalhamento do dinheiro envolvido”, lembra.
Os recursos disponíveis para o PBIA são da ordem de R$ 23 bilhões, a serem investidos no decorrer de quatro anos. Várias ações já estão em curso. A meta, informa-se na descrição do plano, é transformar o país em referência mundial em inovação e eficiência no uso da inteligência artificial, especialmente no setor público.
“O entendimento é de que a IA é uma área de investigação com ferramentas capazes de alavancar o desenvolvimento social e econômico do Brasil”, demarcou Hugo em sua apresentação. O acompanhamento da comunicação foi feito por Dorgival Guedes, professor do Departamento de Ciência da Computação (DCC) do Instituto de Ciências Exatas (ICEx), que coordenou as sessões de perguntas ao fim da palestra. A íntegra pode ser assistida a seguir.
Ações de impacto e ações estruturantes
O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) 2024-2028 destrinchado pelo diretor divide-se em ações de impacto imediato e ações estruturantes. As iniciativas de curto prazo são aquelas voltadas para a solução de problemas específicos de áreas prioritárias para a população, como saúde, educação e desenvolvimento social. Já as ações estruturantes são as iniciativas que visam garantir, entre outras coisas, a soberania tecnológica brasileira e a competitividade da economia nacional em longo prazo.
Cerca de R$ 435 milhões foram destinados para essas ações mais imediatas. O restante do montante foi destinado para as ações estruturantes, que se dividem em cinco eixos: Infraestrutura e desenvolvimento de IA; difusão, formação e capacitação em IA; IA para melhoria dos serviços públicos; IA para inovação empresarial; e apoio ao processo regulatório e de governança da IA. “Quando o Brasil lança esse programa, a gente entende que o país tem um rumo”, afirmou o diretor. “Não vamos deixar essa grande onda passar.”
Ponta de lança
Segundo o diretor do MCTI, as universidades brasileiras são “a ponta de lança” de várias das metas listadas no plano. “Qual é a intenção ‘zero’ do plano? ‘Formar, capacitar e requalificar pessoas em grande escala’. Ora, quando a gente fala de recursos humanos, a gente está falando das universidades”, destacou, citando a UFMG não apenas como um dos principais polos formadores de recursos humanos do país, mas “um dos grandes polos de inovação e desenvolvimento tecnológico do Brasil”.
A segunda meta do PBIA, destacada pelo diretor em sua comunicação, é equipar o Brasil com uma infraestrutura com alta capacidade de processamento. Nesse quesito, o diretor destacou a necessidade de haver uma mudança, nas universidades, do paradigma dos laboratórios exclusivos de cada pesquisador ou grupo de pesquisa para o paradigma dos laboratórios compartilhados. Segundo Hugo, só será possível realizar grandes feitos no campo da inteligência artificial se se instaurar essa nova lógica de compartilhamento nas instituições.
“Isso é fácil de explicar: é que o custo das coisas – isto é, o valor que precisa ser pago para se montar uma estrutura computacional adequada para se rodar os problemas de inteligência artificial de um país – simplesmente mudou de patamar. Agora, já não estamos falando mais de alguns milhões: estamos falando realmente de bilhões”, afirmou. “De fato, os grandes modelos utilizam bases de dados muito grandes e demandam muita capacidade computacional.”
Em seguida, o diretor destacou a meta estratégica, e, em sua opinião, incontornável, de se promover ações de desenvolvimento tecnológico e ações de cooperação internacional no campo da inteligência artificial. Nesse contexto, Hugo demarcou a necessidade de se promover o desenvolvimento da indústria nacional de um modo articulado internacionalmente, para que o país não fique dependente de insumos produzidos exclusivamente em poucas praças mundiais.
Para exemplificar sua argumentação, Valadares lembrou o que ocorreu durante a pandemia, quando o Brasil e vários outros países do mundo enfrentaram dificuldades com a escassez do “insumo farmacêutico ativo”, os IFAs, necessários para a produção de vacinas. Ele também citou o impacto que as guerras têm nas cadeias de fornecimento, lembrando o caso da Ucrânia, grande fornecedor mundial de fertilizantes. Com a guerra, parte da produção brasileira e mundial de comida ficou comprometida.
“Portanto, o que a gente se deu conta de que não podemos ter apenas um ou dois fornecedores no mundo para insumos estratégicos, pois, em momentos de escassez mundial, como na pandemia ou no caso de guerras, cada país vai cuidar primeiro do seu território”, afirmou. “O que a gente precisa, então, é de desenvolvimento tecnológico em paralelo. Precisamos trabalhar em cooperação. Precisamos fazer o compartilhamento do desenvolvimento”, disse, reiterando a necessidade de uma emancipação produtiva da indústria nacional.
Por fim, Hugo Valadares destacou a meta de se desenvolver, no âmbito da inteligência artificial, modelos de linguagem em português e com dados nacionais, de forma que seja possível abarcar a diversidade cultural, social e linguística do Brasil. “Precisamos de um modelo de linguagem com a cara do Brasil. Precisamos aprender a fazer”, disse.
O diretor concluiu sua apresentação agradecendo a parceria com a UFMG. “É muito importante para nós, do MCTI, estarmos aqui com vocês hoje. Contamos com a UFMG como uma parceira do Ministério: não é possível nenhum tipo de desenvolvimento tecnológico no Brasil se não trabalharmos conjuntamente”, reiterou.
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