Tecnologia desenvolvida na UFMG propõe abordagem inovadora para reduzir complicações do envenenamento por serpentes
Anticorpo monoclonal é empregado no desenvolvimento de antivenenos com 100% de capacidade neutralizante, eliminando a dependência de grandes animais e a variação entre lotes dos métodos convencionais
Por: Janaína Coelho/CTIT com Matheus Espíndola/Agência de Notícias da UFMG
Com o propósito de reduzir a hemorragia, a necrose tecidual e outros efeitos dos envenenamentos causados por picadas de serpentes do gênero Bothrops — grupo que inclui as espécies popularmente conhecidas como jararacas, pesquisadores do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG desenvolveram um anticorpo monoclonal capaz de reconhecer e neutralizar as toxinas desses animais.
Segundo o professor que coordena o estudo, Carlos Olórtegui, do Departamento de Bioquímica e Imunologia, o anticorpo monoclonal funciona como uma chave altamente precisa, capaz de reconhecer e se ligar a um alvo específico — neste caso, as toxinas hemorrágicas do veneno. “Anticorpos monoclonais são ferramentas biotecnológicas produzidas em laboratório que se distinguem por serem capazes de reconhecer um único epítopo de um antígeno (a parte específica do antígeno reconhecida pelo anticorpo), oferecendo uma precisão muito superior à dos métodos convencionais”, explica o professor.
Olórtegui detalha que os anticorpos monoclonais são gerados a partir de hibridomas — células híbridas resultantes da fusão entre células B de um animal imunizado, que secretam o anticorpo, e células de mieloma, que garantem a sobrevivência e a produção contínua em cultura. “Por serem derivados de um único clone de célula B individualizada, esses anticorpos formam um lote homogêneo e sem variações, permitindo, por exemplo, a criação de antivenenos com 100% de capacidade neutralizante contra toxinas específicas”.
A tecnologia já é amplamente utilizada no combate a alguns tipos de câncer e de doenças inflamatórias e pode representar uma alternativa promissora no tratamento de envenenamentos por animais peçonhentos.
Vantagens
Segundo o professor, a principal vantagem dos anticorpos monoclonais em relação aos métodos convencionais, como a produção de soro em cavalos, reside na sua precisão e eficiência, já que possibilitam criar um antiveneno composto por 100% de anticorpos neutralizantes direcionados especificamente às toxinas de interesse. Enquanto a técnica tradicional resulta em anticorpos policlonais — que incluem defesas contra diversos antígenos aos quais o animal foi exposto e exigem grandes doses para serem eficazes —, os monoclonais eliminam variações entre lotes e garantem uma ação mais direta.
“Além disso, o método laboratorial é mais ético e sustentável, pois o uso de animais ocorre apenas uma única vez para a coleta inicial de células, que são então “imortalizadas” em cultura para secretar os anticorpos indefinidamente”, acrescenta Olórtegui.
Desenvolvida no Laboratório de Imunoquímica de Proteínas, a tecnologia está protegida e disponível para licenciamento pela UFMG. Acidentes com serpentes ainda representam um importante desafio de saúde pública no Brasil e em outras regiões tropicais. No país, de 9 em cada 10 eventos do tipo estão associados às serpentes do gênero Bothrops.
Fonte
Assessoria de Comunicação Social e Divulgação Científica do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG
comunica@icb.ufmg.br