Estudo da UFMG aponta aumento das doenças crônicas não transmissíveis no Brasil
Por: Assessoria de Imprensa UFMG
No Brasil, a prática de atividade física no lazer aumentou, mas também cresceram as prevalências de excesso de peso, obesidade, hipertensão e diabetes, afetando mais os grupos vulneráveis, de baixa renda e escolaridade. É o que aponta o estudo “Análise temporal das prevalências de doenças crônicas não transmissíveis, dos fatores de risco e de proteção segundo escolaridade de 2006 a 2023”, coordenado pela professora Deborah Carvalho Malta, do Departamento de Enfermagem Materno Infantil e Saúde Pública da Escola de Enfermagem da UFMG.
A pesquisa, realizada em parceria com o Ministério da Saúde, analisou a forma como doenças crônicas não transmissíveis (doenças cardiovasculares, câncer, doenças respiratórias crônicas e diabetes) e seus fatores de risco e proteção evoluíram entre adultos brasileiros ao longo de 17 anos, de acordo com o nível de escolaridade.
Segundo a professora Deborah Malta, o objetivo do estudo foi estudar a maneira como critérios socioeconômicos influenciam na expectativa de vida, morbidade e nos comportamentos relacionados à saúde em geral, de modo a organizar e promover políticas públicas que atendam a população. Para a análise, foram utilizados dados do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), que monitora, anualmente, o comportamento e as condições de saúde da população adulta residente nas capitais dos 26 estados brasileiros e do Distrito Federal, averiguando: uso de tabaco, consumo abusivo de bebida alcoólica, consumo de frutas e hortaliças, consumo regular de feijão, consumo de alimentos protetores, consumo de alimentos ultraprocessados, prática suficiente ou insuficiente de atividade física, excesso de peso, obesidade, hipertensão e diabetes.
A professora explica que a educação é uma das principais formas de se medir as desigualdades sociais, visto que ela está diretamente ligada aos indicadores de renda, emprego e acesso à saúde. “Essas doenças e os seus fatores de risco se distribuem de forma distinta, afetando e causando mais incapacidades entre os indivíduos socialmente desfavorecidos ou marginalizados, de baixa renda e escolaridade. Devido ao acesso reduzido aos serviços de saúde, essas populações têm menos oportunidades para prevenção de doenças e agravos e de promoção da saúde”, afirma. Ela também ressalta que, para além de fatores biológicos e comportamentais, a desigualdade de indicadores econômicos, sociais e culturais resulta em diferentes tendências para adoção de hábitos saudáveis e acesso a atendimento médico.
Entre os mais escolarizados, observou-se maior consumo de frutas, hortaliças e vegetais, além de maiores níveis de atividade física e menores prevalências de tabagismo, hipertensão, diabetes e obesidade. Em 2023, 51,9% dos indivíduos com 12 anos ou mais de estudos praticavam atividades físicas regularmente, em comparação a 26,6% daqueles com 0 a 8 anos de estudos. De forma semelhante, o consumo de frutas e hortaliças representou 27,2% e 17,1%, respectivamente, no mesmo ano.
No que diz respeito aos indicadores de doenças crônicas, houve aumentos em toda a população, mas com maior expressividade entre os menos escolarizados. De 2006 a 2023, a quantidade de adultos hipertensos com 0 a 8 anos de estudos cresceu de 31,9% para 45,3%. O mesmo ocorreu com o diabetes, que passou de 9% para 19,4%, e a obesidade, de 15,3% para 26,9%. Em contrapartida, a população com 12 anos ou mais de estudos apresentou menores taxas nos três níveis, com 19% para hipertensão, 5,5% para diabetes e 22,7% para obesidade, no ano de 2023. Os resultados também mostraram tendências de redução das prevalências de tabagismo e do consumo de feijão, além do aumento do sobrepeso para todos os níveis de escolaridade.
Para a professora Deborah Malta, os dados reforçam que o enfrentamento das doenças crônicas não transmissíveis passa por investimentos em educação, políticas de renda, fortalecimento da atenção primária, práticas de cessação do tabagismo e a disponibilização de espaços públicos abertos de qualidade para atividades físicas. “As políticas públicas intersetoriais voltadas para a redução das desigualdades sociais são essenciais para a promoção de uma saúde mais equitativa e de qualidade de vida ampliada, que abrange não só a ausência de doenças, mas o bem-estar físico, mental e social”, conclui.
Além da professora Deborah Malta, o artigo é assinado pelas pesquisadoras da UFMG: Crizian Saar Gomes, Alanna Gomes da Silva, Juliana Bottoni de Souza, Évelin Angélica Herculano de Morais e pelas representantes do Ministério da Saúde Paula Carvalho de Freitas, Laura de Souza Cury, Adriana Carvalho e Georgia Albuquerque.
Fonte
Assessoria de Comunicação da Escola de Enfermagem da UFMG
comunicacao@enf.ufmg.br