Professor da UFMG participa de estudo que investiga como animais decidem entre lutar ou recuar
Trabalho publicado nesta semana analisa os custos fisiológicos e reprodutivos dos confrontos e propõe modelo para compreender as estratégias evolutivas que determinam as escolhas
Com informações do setor de Media & Communications da Cell Press
As variáveis que determinam as decisões dos animais ao lutar, voar, nadar ou se afastar, por exemplo, estão relacionadas ao seu impacto – cumulativo e em longo prazo – à longevidade e à reprodução. É o que sustentam pesquisadores da UFMG e da Universidade de São Paulo (USP), no artigo What we (don’t) know about costs in animal contests, publicado na quarta-feira, dia 16, na revista Trends in Ecology & Evolution.
“Ligando os concursos individuais ao sucesso reprodutivo ao longo da vida, podemos entender como diferentes contextos e situações ambientais poderiam favorecer a evolução de estratégias de decisão em diferentes espécies”, afirma um dos autores do artigo, o professor Paulo Enrique Peixoto, do Departamento de Genética, Ecologia e Evolução do Instituto de Ciências Biológicas (ICB).
As lutas – com ou sem contato físico – podem esgotar reservas de energia e, em alguns casos, resultar em ferimentos físicos e morte. Os animais costumam competir por alimento, abrigo, território ou parceiros para acasalamento. “Por isso, as espécies devem ter evoluído na elaboração de estratégias para decidir quando devem lutar ou desistir”, registram os autores.
Custo x benefício
Os pesquisadores afirmam que a estratégia de conflito ideal varia de acordo com a espécie e a situação. Assim, os benefícios potenciais podem superar os riscos para recursos muito valiosos, mas, no caso de recursos menos importantes, os indivíduos tendem a se abster, especialmente se a vitória for improvável. “Se camarões-pistola perdem uma pinça durante uma luta, ela se regenera depois. Não é uma perda significativa, porque os animais podem se recuperar e lutar em concursos subsequentes”, exemplifica Paulo Peixoto. “Mas, se um besouro quebra um chifre durante uma luta, não há regeneração. Como ele costuma lutar pelo acesso a fêmeas, isso significa que não poderá mais se reproduzir”, contrapõe o autor, a respeito dos potenciais custos de uma perda.
Para levantar a caracterização, na literatura sobre o tema, dos custos dos conflitos animais, os pesquisadores fizeram uma revisão sistemática de estudos de campo e de laboratório. De 73 artigos abrangendo 62 espécies animais, eles identificaram 24 tipos diferentes de custo, que agruparam em seis categorias: aumento do metabolismo; estresse e redução da imunidade; lesão e mortalidade; diminuição das oportunidades de busca por alimento; diminuição da consciência de predadores; diminuição do investimento em cuidados parentais.
Sucesso reprodutivo
Para entender as consequências dos concursos, é preciso levar em conta o custo médio de um único concurso em relação à longevidade ou ao sucesso reprodutivo ao longo da vida do indivíduo, como detalha Paulo Enrique Peixoto: “Existem contextos que favorecem indivíduos que sempre lutam e são mais agressivos, e outras situações que favorecem indivíduos mais cautelosos, que só lutam contra rivais mais fracos para aumentar suas chances”.
Os pesquisadores propuseram um processo em três etapas para avaliar os custos de curto e de longo prazo, começando pela identificação do custo mais importante para a espécie em questão. O passo seguinte é medir como esse custo se acumula em uma única luta. Por fim, a equipe sugere apurar a relação entre a frequência de lutas e a tendência a gerar filhotes. “Sabendo o número médio de lutas em que diferentes indivíduos estão envolvidos e suas expectativas de vida, podemos estimar se indivíduos que lutam mais ou menos têm mais sucesso reprodutivo”, define Paulo Enrique Peixoto. “Essa conexão nos permitiria obter insights mais profundos sobre a dinâmica evolutiva dos concursos animais e as negociações que os indivíduos enfrentam”, conclui Paulo Peixoto.
A pesquisa foi apoiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
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