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Ciência e Tecnologia

UFMG coordena rede internacional de IA responsável e sustentável

Com sede no DCC, novo INCT reunirá cientistas e instituições do Brasil e do exterior para inovar em inteligência artificial com foco na cultura brasileira e na redução do impacto ambiental

Por Marcus Vinícius dos Santos

Marca do INCT
Foto: divulgação

O Departamento de Ciência da Computação (DCC) da UFMG, com apoio de universidades de todas as regiões brasileiras, além de universidades e institutos do exterior, vai sediar um novo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT), dedicado à inteligência artificial responsável aplicada à linguagem natural. 

O INCT em Inteligência Artificial Responsável para Linguística Computacional, Tratamento e Disseminação de Informação, ou INCT TILD-IAR foi oficialmente aprovado no dia 1º de julho de 2025, em resposta à Chamada nº 46/2024 do Programa INCT, com uma das notas mais altas do país. A seleção foi promovida pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), CNPq, Capes e Fundações de Amparo à Pesquisa (Fapemig, em Minas Gerais). 

O TILD-IAR forma uma rede composta de mais de 80 pesquisadores de 30 instituições em todas as regiões do Brasil, além de colaborações internacionais. Financiamento de aproximadamente R$ 9 milhões está previsto para o período de cinco anos de trabalho. O novo INCT é coordenado pelos professores Marcos André Gonçalves, do DCC, e Altigran Silva, do Instituto de Computação da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

Dentro do Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, os INCT são considerados fundamentais devido a seu foco em áreas específicas de conhecimento e à sua complexidade organizacional e financeira.

Marcos Gonçalves: sistemas transparentes e sustentáveis
Foto: Nathalie Rajão | DCC/UFMG

IA com sotaque brasileiro
Segundo Marcos André Gonçalves, a proposta do INCT TILD-IAR é marcar uma nova etapa da inteligência artificial (IA) responsável no Brasil. O projeto combina alcance nacional, produção de conhecimento em português e compromisso com a sustentabilidade e a inclusão da diversidade social no dia a dia da pesquisa. Ele aponta um dos diferenciais da nova estrutura: integrar excelência acadêmica com impacto social direto, oferecendo alternativas mais seguras, auditáveis e alinhadas com os desafios enfrentados pela sociedade brasileira.

“Nosso compromisso é desenvolver tecnologias que valorizem a nossa língua, respeitem a nossa cultura e protejam os nossos dados. Queremos sistemas que sejam transparentes em seu funcionamento e sustentáveis em toda a sua jornada, do código à energia que utilizam”, explica Leonardo Chaves Dutra da Rocha, professor da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) e coordenador da Comissão de Comunicação do INCT TILD-IAR.

Linguística e IA sustentável
O novo Instituto foca em três eixos temáticos interdisciplinares que unem a linguística e a ciência da computação, particularmente a IA responsável e sustentável, para o desenvolvimento de sistemas capazes de processar e gerar linguagem natural. Estes são os eixos:

Linguística computacional: modelagem computacional da linguagem humana, base para tradutores, assistentes virtuais e chatbots. Pesquisas nessa linha focam no desenvolvimento de recursos e tecnologias de Processamento de Linguagem Natural para o português, promovendo representatividade, diversidade e qualidade dos dados, com atenção à evolução da linguagem, às redes sociais e aos desafios de uma IA responsável alinhada a padrões internacionais. 

Tratamento de informação: foco na organização, recuperação e tratamento de grandes volumes de informação, tratando desafios e oportunidades na era dos modelos generativos. Prioridades são eficácia, confiabilidade, rastreabilidade, personalização, equidade e novas arquiteturas como RAG e agentes, especialmente em domínios sensíveis como saúde e direito.

Disseminação de informação: investiga-se como a informação se espalha nas redes sociais, considerando o papel dos algoritmos, a detecção de desinformação, os impactos de emoções e opiniões, a moderação de discursos prejudiciais e a formação da opinião pública, além de promover a alfabetização midiática. 

Esses eixos sustentam aplicações populares da IA tais como motores de busca, redes sociais e plataformas de recomendação em streaming. A proposta envolve priorizar o uso da língua portuguesa, promover a inovação responsável, além de formar profissionais de ponta e promover impacto social, ambiental e tecnológico.

Altigran Silva integra a coordenação do INCT
Foto: acervo pessoal

O papel do novo INCT
O desenvolvimento da pesquisa de IA direcionada a questões de Linguagem e Informação no Brasil ainda é muito fragmentado. “Há grupos excelentes, mas isolados”, afirma Marcos Gonçalves. “O TILD-IAR deverá favorecer a integração de várias forças, otimizar recursos e garantir que o país não dependa exclusivamente de soluções importadas.”

Outro aspecto relevante é que a IA atual exige cada vez mais energia, dados e poder de cálculo, com alto custo ambiental e financeiro. O INCT busca alternativas à lógica dominante, que ainda pode ser vista como predatória, do ponto de vista da sustentabilidade. A intenção é desenvolver algoritmos mais leves e mais eficientes, na tentativa de eliminar preconceitos embutidos nos processos produzidos por outras culturas.

Resultados socialmente legítimos

O conceito de Pesquisa e Inovação Responsáveis (PIR ou RRI, na sigla em inglês) foi desenvolvido na Europa. A abordagem visa alinhar a pesquisa científica às necessidades, valores e expectativas da sociedade, tendo como base responsabilidade, sustentabilidade e inclusão, e priorizando a língua portuguesa e a realidade brasileira. O objetivo é garantir que os resultados da ciência sejam úteis, seguros, sustentáveis e socialmente legítimos, e reforçar a confiança social na ciência e na inovação.

Seis princípios práticos orientam essa abordagem: governança transparente, ética na pesquisa, acesso aberto ao conhecimento, educação científica, igualdade de gênero e engajamento público. E diretrizes complementares antecipam riscos e impactos, promovem a inclusão de múltiplos atores sociais, a abertura dos processos de decisão e a capacidade de adaptação diante de novas informações.

Na prática, portanto, o PIR se ocupa de desenvolver tecnologias a partir de análise crítica contínua e não apenas da percepção dos profissionais do meio acadêmico. Ou seja, privilegia a comunicação e o diálogo com toda a sociedade – não só cientistas, mas legisladores, gestores públicos, educadores, empresários e outros segmentos que possam usufruir ou sentir as consequências das inovações de base científica.

Entregas previstas
O INCT TILD-IAR vai desenvolver modelos de linguagem em português para áreas como saúde, justiça e redes sociais; algoritmos auditáveis para busca e recomendação de informação; soluções para reduzir desinformação e discurso de ódio online; ferramentas com menor impacto ambiental; cursos de formação, capacitação e requalificação de profissionais; repositórios abertos de dados, algoritmos e softwares.

Um dos destaques é o minicluster de GPUs (Graphics Processing Units), estrutura essencial para processar grandes volumes de dados e treinar modelos de IA de forma autônoma, fora de nuvens comerciais. GPUs são processadores capazes de realizar milhares de cálculos simultaneamente.

O TILD-IAR contará com sua própria infraestrutura, o que reduz a dependência de de grandes empresas de tecnologia, as big techs, aumenta a autonomia nacional e minimiza o consumo de energia em nuvens comerciais.

A rede prevê também apoio a startups e empresas de base tecnológica; hackathons e eventos de cocriação com o setor produtivo; cooperação internacional com centros de excelência em IA e atividades de divulgação científica para escolas, a mídia e a sociedade.

O resultado da chamada está disponível no site do CNPq.

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