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Despedida

Morre a professora Maria Gorete Neto, da Faculdade de Educação, defensora do português indígena

Desde que chegou à UFMG, em 2011, ela esteve engajada na Formação Intercultural de Educadores Indígenas; despedida ocorreu no último domingo, 10

Por Itamar Rigueira Jr.

Morreu no último sábado, 9 de agosto, aos 52 anos, a professora Maria Gorete Neto, da Faculdade de Educação (FaE). Ela lutava contra um câncer de mama desde 2020. A situação chegou a se estabilizar, mas houve reincidência. A despedida foi feita no domingo, 10.

Nascida no Paraná, em 1973, Gorete mudou-se com a família, ainda criança, para Passos (MG). Era vinculada ao Departamento de Métodos e Técnicas de Ensino e à Formação Intercultural de Educadores Indígenas (Fiei). Ingressou na UFMG em 2011 e logo se incorporou à equipe da Fiei – foi coordenadora do curso de 2015 a 2017. Esteve à frente também da área de Línguas, Artes e Literatura do curso e integrou a equipe dessa mesma área na Licenciatura em Educação do Campo (Lecampo). Gorete também lecionava no curso de Pegagogia, nas licenciaturas e no Promestre, mestrado profissional em Educação. Também ocupou o cargo de chefe do departamento.

Maria Gorete Neto: engajamento nas lutas indígenas.
Foca Lisboa | UFMG

Formada da graduação ao doutorado na Unicamp, Maria Gorete Neto era professora de língua portuguesa e linguista. No final do curso de Letras, fez um estágio em comunidade do povo Apyawa (Tapirapé, para os não indígenas), no médio Rio Araguaia, no Mato Grosso. Ficou por três anos e participou da implantação da escola indígena da comunidade. Mais recentemente, nos tempos de pandemia, mesmo a distância, deu importante apoio aos Apyawa.

“Gorete sempre foi muito engajada nas lutas indígenas, inclusive atuando com o Conselho Indígena Missionário”, lembra a também professora da FaE Shirley Miranda. “Defendia o português indígena, a forma como os povos originários se apropriam da língua portuguesa – subvertendo algumas regras, de modo a aproximar a língua de sua cultura, de sua forma de entender o mundo. Pregava o respeito a essa apropriação, como parte mesmo da cultura dos povos e forma de resistência. Ela nos ensinou a lidar com a escrita dos nossos estudantes, a não corrigir seus textos com os critérios usados com os não indígenas”, completa a professora, que é pró-reitora adjunta de Assuntos Estudantis da UFMG.

Maria Gorete Neto combinava sensibilidade e firmeza na orientação aos estudantes, era discreta e reservada, na visão de Shirley Miranda. “Essa característica e a origem de sua personalidade firme e sensível ficaram ainda mais nítidas quando descobrimos, depois de muito tempo, sua longa relação com o candomblé”, diz a ex-colega. “Ela mostrou que é possível amar silenciosamente, sem exibir isso, e foi como tratou a todos que estavam em situação de subalternidade.”

Gorete com Shirley Miranda: sensível, firme e reservada
Foto: acervo pessoal

‘Calma que acolhia’
A professora Marina Tavares, que também trabalhou com Gorete e a teve como amiga, ressalta que elas ingressaram  na Universidade em períodos próximos e foram colegas de departamento e no Fiei, que ambas coordenaram. “Em seu mandato, ela teve atuação exemplar. Lembro da Gorete séria, comprometida e extremamente engajada com as demandas do curso e com as lutas dos povos indígenas. Destacava-se também a sua generosidade como pesquisadora do Ensino de Língua Portuguesa ao compartilhar conhecimentos sobre a sociolinguística e o português falado por povos indígenas, o Português Indígena (Braslind)”, diz Marina. “Também não posso esquecer da Gorete divertida, com seu belo sorriso, seus cachinhos dourados e uma calma que nos acolhia e nos dava a segurança de que encontraríamos soluções para os inúmeros desafios enfrentados. A convivência com a Gorete me inspira como profissional e pessoa. Afinal, tomar as rédeas da vida sem perder a leveza é um grande ensinamento!”

‘Quanto mais [indígenas na Universidade], melhor’
Em setembro de 2016, reportagem no Portal UFMG sobre a formatura de uma turma do Fiei destacava que Gorete, então coordenadora do curso, mencionou o crescimento contínuo, da turma e dela própria, ao longo dos semestres, e afirmou que a resistência demonstrada pelos alunos ao enfrentar obstáculos para realizar a formação reforçava nela o compromisso com as causas indígenas. “Precisamos dos índios na Universidade. Quanto mais, melhor. Seja em cursos de licenciatura ou de bacharelado, para que a UFMG se componha, de fato, da diversidade de línguas e culturas deste país”, disse, na ocasião.

A professora da Universidade de Brasília Altaci Kokama postou uma homenagem a Gorete no Instagram. “Maria Gorete foi amiga, companheira e parceira incansável no GT Nacional da Dili [Década Internacional das Linguas Indígenas, instituída pela ONU em 2019]. Os maracás soam, os tambores tocam, as flautas sopram em sua homenagem. Ela parte para o plano ancestral, mas permanece viva em nossa memória e no nosso coração.”

No texto, Altaci Kokama salientou o legado valioso de Gorete, que ela define como “pesquisadora comprometida, que contribuiu de forma decisiva para o projeto de lei sobre intérpretes e tradutores indígenas que hoje tramita no Congresso”. “Maria Gorete nos ensinou que generosidade, confiança e compromisso são sementes que florescem no coletivo. Deixará saudades, muitos ensinamentos e um exemplo de luta! Seu legado permanece como uma semente que germina nos corações de todos e todas que foram tocados por suas palavras gentis e fraternas.”

De acordo com Shirley Miranda, Gorete enfrentou uma doença agressiva com dignidade e sabedoria. Como morava sozinha e longe da família, as amizades que construiu no trabalho acompanharam sua luta cotidiana no tratamento da doença, numa rede de apoio e cuidados. “Tivemos a oportunidade de conviver com uma pessoa íntegra, amorosa e engajada com as lutas emancipatórias. Essa rede de apoio foi uma chance de compartilhar um bem inestimável, que é a solidariedade. Gorete nos deixou mais esse ensinamento”, afirma.

Os estudantes do Fiei e o Conselho de Lideranças Indígenas se manifestaram com tristeza pela morte de Gorete e destacaram sua gratidão à professora. Maria Gorete Neto deixa pai, mãe e três irmãos.

Estágios na Universidade do Texas
Licenciada em Ciências Sociais (1993) pela Faculdade de Filosofia de Passos (MG), Maria Gorete Neto formou-se bacharel em Linguística, mestre e doutora em Linguística Aplicada, sempre na Unicamp. Fez estágio de doutorado no Departamento de Linguística da Universidade do Texas em Austin (EUA) e pós-doutorado no Tereza Lozano Long Institute of Latin American Studies (Lillas) da mesma instituição. Atuou na área da Linguística Aplicada, sobretudo no ensino de português como língua materna e como segunda língua, ensino de português para povos indígenas, identidades, representações, políticas linguísticas e educação escolar indígena.

Maria Gorete Neto (à esquerda) na comunidade dos Tapirapé, no fim dos anos 1990.
Foto: Acervo pessoal
Categoria: Pessoas

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