“Mortes de pessoas negras no Brasil são fruto da lógica da escravidão, que ainda se perpetua”, denuncia Maria da Consolação, do MNU
Militante do Movimento Negro Unificado falou sobre a morte da médica negra Andréa Marins Dias, que teve o carro atingido por tiros disparados por policiais, no Rio de Janeiro
Nesta segunda-feira, 23 de março de 2026, a pedagoga, militante feminista e do Movimento Negro Unificado (MNU), Maria da Consolação, conversou com o jornalista e apresentador Hugo Rafael, no programa Acesso Livre.

Mestra e doutora em Educação, a convidada analisou o cenário de violência policial contra a população negra no Brasil, exemplificado pelo recente assassinato da médica Andréa Marins Dias, no Rio de Janeiro, vítima da Polícia Militar.
A médica de 61 anos foi morta no domingo, 15 de março, por policiais que teriam confundido o carro dela com o de suspeitos que eram perseguidos, no Rio de Janeiro. Ela era uma mulher negra com residências médicas em cirurgia geral e em cirurgia oncológica, especializada no tratamento de endometriose. Foi morta após sair da casa dos pais em Cascadura, Zona Norte, quando seu carro foi atingido por tiros.
O Ministério da Igualdade Racial e a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Rio cobraram providências em ofício à Secretaria de Segurança Pública do Estado. As câmeras corporais dos três policiais envolvidos, que teriam imagens fundamentais para mostrar o que aconteceu, estavam “descarregadas”, de acordo com a Polícia Militar. Os agentes foram afastados do patrulhamento nas ruas até a conclusão das investigações.
Ainda há pouquíssimas médicas negras no Brasil e, quando se perde uma, todos perdemos. O Brasil tem uma das polícias militares que mais mata no mundo e uma segurança pública marcada pela perpetuação do racismo estrutural, que faz com que a população negra e periférica siga como principal alvo dessa política de segurança pública nefasta. Assim como ocorreu com a médica Andréa Marins Dias, são vários os casos de pessoas negras mortas “por engano” por forças de segurança que ganham repercussão nacional. Um dos casos mais emblemáticos é o do músico Evaldo Rosa dos Santos, morto por militares do Exército enquanto ia para um chá de bebê com a família, também no Rio de Janeiro, em 2019. O catador de materiais recicláveis Luciano Macedo, que estava próximo, também foi baleado e morreu. Os militares envolvidos foram condenados pelo Superior Tribunal Militar, em 2021, a quase 30 anos de prisão, mas foram absolvidos da morte de Rosa em 2024 e tiveram pena reduzida para cerca de 3 anos em regime aberto.
Apenas em 2025, o Brasil teve um aumento de 4,5% nas mortes cometidas por policiais, segundo dados divulgados pelo Ministério da Justiça. Foram 6.519 pessoas mortas pelas polícias de todos os estados.