{"id":16105,"date":"2026-01-07T08:44:00","date_gmt":"2026-01-07T11:44:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufmg.br\/?post_type=news&#038;p=16105"},"modified":"2026-01-07T08:44:29","modified_gmt":"2026-01-07T11:44:29","slug":"mulheres-indigenas-morrem-mais-precocemente-no-brasil","status":"publish","type":"news","link":"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-test\/comunicacao\/noticias\/pesquisa-e-inovacao\/mulheres-indigenas-morrem-mais-precocemente-no-brasil\/","title":{"rendered":"Mulheres ind\u00edgenas morrem mais precocemente no Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pesquisa desenvolvida no Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o de Sa\u00fade P\u00fablica da Faculdade de Medicina da UFMG mostrou que mulheres ind\u00edgenas entre 10 e 49 anos tendem a morrer mais cedo que mulheres brancas. O estudo indicou uma idade mediana de morte de 31 anos para as ind\u00edgenas, enquanto, entre mulheres brancas, a idade \u00e9 de 39 anos. A pesquisa, <a href=\"https:\/\/www.thelancet.com\/journals\/lanam\/article\/PIIS2667-193X(25)00193-0\/fulltext\">publicada na revista The Lancet<\/a>, foi desenvolvida pelo mestrando Guilherme Torres e pela professora Fl\u00e1via Bulegon Pileco, do Departamento de Medicina Preventiva e Social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O estudo epidemiol\u00f3gico analisou a evolu\u00e7\u00e3o das taxas de mortalidade de mulheres ind\u00edgenas brasileiras em idade reprodutiva, entre 2010 e 2019, em compara\u00e7\u00e3o com as taxas de mulheres brancas. O projeto buscou dar visibilidade a um grupo populacional ainda pouco estudado no pa\u00eds, investigando n\u00e3o apenas os \u00f3bitos relacionados \u00e0 maternidade, mas o conjunto de causas de morte dessas mulheres.\u00a0 Foram constatadas importantes desigualdades, que refletem padr\u00f5es de adoecimento diferenciados. Al\u00e9m de morrerem mais precocemente que as mulheres brancas, as ind\u00edgenas morrem com mais frequ\u00eancia fora de hospitais, levando a s\u00e9rios questionamentos sobre a equidade no acesso a cuidados em sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cPartimos da preocupa\u00e7\u00e3o com as desigualdades estruturais que atingem os povos ind\u00edgenas e com a falta de informa\u00e7\u00f5es consistentes sobre sua sa\u00fade. No caso das mulheres ind\u00edgenas, especificamente, quisemos superar o que chamamos de &#8216;materno-infantilismo&#8217;, uma vis\u00e3o limitada que reduz o cuidado \u00e0s quest\u00f5es reprodutivas e ignora outras formas de adoecimento e morte\u201d, destaca Torres.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pesquisa foi realizada com dados nacionais reunidos em bancos de informa\u00e7\u00f5es do Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS). Foram analisados \u00f3bitos de quase 280 mil mulheres ind\u00edgenas e brancas, ao longo de uma d\u00e9cada, nas cinco macrorregi\u00f5es. A maior parte das ocorr\u00eancias entre ind\u00edgenas v\u00eam das regi\u00f5es Norte e Centro-Oeste que, juntas, responderam por dois ter\u00e7os dos \u00f3bitos, seguidas do Nordeste, com aproximadamente 15%, Sul, com  9%, e Sudeste, com 7%. O estudo tamb\u00e9m produziu evid\u00eancias que podem orientar pol\u00edticas p\u00fablicas mais justas, que considerem as especificidades culturais e sociais dessas mulheres e contribuam para um cuidado em sa\u00fade realmente inclusivo e efetivo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Torres explica que o padr\u00e3o de mortalidade \u00e9 complexo, com m\u00faltiplas causas, e reflete um duplo fardo de doen\u00e7as entre essas mulheres. De um lado, persistem causas evit\u00e1veis, como doen\u00e7as infecciosas e parasit\u00e1rias, mortes maternas e causas externas. Por outro, h\u00e1 um aumento expressivo das doen\u00e7as cr\u00f4nicas n\u00e3o transmiss\u00edveis, dos aparelhos circulat\u00f3rio, digestivo e respirat\u00f3rio e de neoplasias e doen\u00e7as end\u00f3crino-metab\u00f3licas e nutricionais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cEssas mulheres continuam expostas a problemas t\u00edpicos de contextos com baixa cobertura de sa\u00fade b\u00e1sica, superados para muitos setores da sociedade brasileira, ao mesmo tempo em que enfrentam um crescimento de doen\u00e7as associadas \u00e0 urbaniza\u00e7\u00e3o e \u00e0s mudan\u00e7as no modo de vida, o que evidencia uma situa\u00e7\u00e3o de desigualdade estrutural na qualidade e no acesso \u00e0 aten\u00e7\u00e3o em sa\u00fade\u201d, diz o pesquisador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Viol\u00eancia e suic\u00eddio<\/strong><br>Segundo a pesquisa, os agentes de mortalidade mais significativos entre mulheres ind\u00edgenas em idade reprodutiva foram as causas externas, que incluem viol\u00eancias, suic\u00eddios, acidentes e envenenamentos. Essas mortes apresentaram as maiores taxas em todo o per\u00edodo analisado \u2014 37 \u00f3bitos por 100 mil mulheres ind\u00edgenas, mais que o dobro do registrado entre mulheres brancas. Embora o indicador tenha se mantido est\u00e1vel ao longo dos anos, ele permaneceu consistentemente alto. Entre mulheres brancas, por outro lado, j\u00e1 existe uma tend\u00eancia de redu\u00e7\u00e3o dessas mortes.\u00a0\u201cPara n\u00f3s, isso reflete a vulnerabilidade dessas mulheres \u00e0 viol\u00eancia, \u00e0 exclus\u00e3o social e \u00e0 falta de acesso a servi\u00e7os de prote\u00e7\u00e3o e de sa\u00fade adequados\u201d, avalia Guilherme Torres.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outra descoberta preocupante do estudo \u00e9 que as taxas de mortalidade por doen\u00e7as cardiovasculares, respirat\u00f3rias e digestivas est\u00e3o em clara tend\u00eancia de aumento entre as mulheres ind\u00edgenas, mantendo-se est\u00e1veis ou mesmo em decl\u00ednio entre as mulheres brancas. De acordo com a pesquisa, entre as mulheres ind\u00edgenas n\u00e3o houve tend\u00eancia de redu\u00e7\u00e3o de mortes em nenhum grupo de doen\u00e7as, e sim uma tend\u00eancia de aumento nos \u00f3bitos por doen\u00e7as digestivas (+12,36%), circulat\u00f3rias (+8,88%), respirat\u00f3rias (+4,56%), neoplasias (+10,41%) e doen\u00e7as end\u00f3crinas e metab\u00f3licas (+8%).\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No caso de mortes por causas externas e doen\u00e7as infecciosas, as taxas permaneceram est\u00e1veis e elevadas entre as ind\u00edgenas, enquanto diminu\u00edram entre as brancas. Esses resultados refor\u00e7am que as mulheres ind\u00edgenas sofrem dupla carga de doen\u00e7as, refletindo desigualdades estruturais, sociais e raciais que afetam sua sa\u00fade e sua expectativa de vida.<\/p>\n\n\n\n\n\t<figure data-size=\"small\"\n\t\tclass=\"group space-y-2 data-[size=small]:w-[21rem] sm:data-[size=medium]:w-[40rem] lg:data-[size=small]:float-left lg:data-[size=small]:mr-8 mx-auto\">\n\t\t\t\t\t<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"336\" height=\"445\" src=\"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-test\/app\/uploads\/2026\/01\/Guilherme-Torres-336x445.jpg\" class=\"group-data-[size=small]:w-[21rem] group-data-[size=small]:h-[29.75rem] sm:group-data-[size=medium]:w-[40rem] sm:group-data-[size=small]:h-[27.8125rem] lg:group-data-[size=medium]:h-[27.8125rem] group-data-[size=large]:w-full group-data-[size=large]:h-[9.875rem] md:group-data-[size=large]:h-[27.8125rem] rounded object-fill\" alt=\"\" \/>\t\t\t\t<div\n\t\t\tclass=\"group-data-[size=small]:w-[21rem] px-3 pt-3 pb-6 md:px-6 group-data-[size=small]:px-3 text-neutral-300 text-xs md:text-sm\">\n\t\t\t<figcaption title=\"Torres: mulheres ind\u00edgenas carregam dupla carga de doen\u00e7as\" class=\"block line-clamp-4 md:line-clamp-3\">\n\t\t\t\tTorres: mulheres ind\u00edgenas carregam dupla carga de doen\u00e7as\t\t\t<\/figcaption>\n\t\t\t<cite\n\t\t\t\tclass=\"relative block not-italic after:absolute after:left-0 after:right-0 after:-bottom-3 after:h-px after:bg-neutral-100\">\n\t\t\t\tFoto: Arquivo pessoal\t\t\t<\/cite>\n\t\t<\/div>\n\t<\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Acesso limitado a servi\u00e7os de sa\u00fade\u00a0<\/strong><br>De acordo com Guilherme Torres, a pesquisa evidencia como as desigualdades sociais e estruturais impactam a mortalidade das mulheres. \u201cAs ind\u00edgenas vivem, em grande parte, em contextos marcados por acesso limitado a servi\u00e7os de sa\u00fade, infraestrutura prec\u00e1ria, barreiras lingu\u00edsticas e culturais, al\u00e9m da discrimina\u00e7\u00e3o institucional. Muitas residem em \u00e1reas remotas, o que dificulta o atendimento em situa\u00e7\u00f5es de urg\u00eancia e o acompanhamento de doen\u00e7as cr\u00f4nicas\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mesmo aquelas que vivem em ambientes urbanos e periurbanos enfrentam precariedades e obst\u00e1culos no acesso aos servi\u00e7os de sa\u00fade. Esses fatores fazem com que causas de morte evit\u00e1veis, como doen\u00e7as infecciosas, complica\u00e7\u00f5es na gesta\u00e7\u00e3o e viol\u00eancias, permane\u00e7am elevadas. \u201cEsses resultados refletem, sobretudo, as desigualdades cr\u00f4nicas e estruturais resultantes de uma invisibiliza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, em um pa\u00eds formado sobre a nega\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia, dos direitos e das particularidades de seus povos origin\u00e1rios\u201d, analisa o pesquisador.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para ele, as pol\u00edticas p\u00fablicas de sa\u00fade podem reduzir significativamente a mortalidade precoce e evit\u00e1vel de mulheres ind\u00edgenas, ao promover o acesso equitativo a servi\u00e7os de sa\u00fade de qualidade, com a\u00e7\u00f5es alinhadas \u00e0s reais demandas dessa popula\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, para que sejam eficazes, essas pol\u00edticas devem ser culturalmente sens\u00edveis, respeitando tradi\u00e7\u00f5es locais e barreiras lingu\u00edsticas, incluindo a forma\u00e7\u00e3o e emprego de profissionais ind\u00edgenas e agentes de interlocu\u00e7\u00e3o e mudan\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, o fortalecimento da infraestrutura log\u00edstica, como transporte e equipamentos m\u00e9dicos e o combate \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o instituciona, s\u00e3o essenciais para garantir que as mulheres ind\u00edgenas utilizem os servi\u00e7os de forma adequada e segura. A educa\u00e7\u00e3o em sa\u00fade e a mobiliza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria tamb\u00e9m desempenham papel central, promovendo a preven\u00e7\u00e3o e a detec\u00e7\u00e3o precoce de problemas de sa\u00fade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cIsso tudo se tornar\u00e1 mais efetivo quando for baseado em evid\u00eancias, fruto de estudos como esse, que joguem luz sobre desigualdades que precisam ser abordadas, ajustando estrat\u00e9gias de forma direcionada. Pol\u00edticas que integrem equidade, sensibilidade cultural, infraestrutura adequada e participa\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria t\u00eam maior potencial de reduzir as disparidades em sa\u00fade, promovendo justi\u00e7a social\u201d, conclui o pesquisador.<\/p>\n","protected":false},"featured_media":16107,"template":"","class_list":["post-16105","news","type-news","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-test\/wp-json\/wp\/v2\/news\/16105","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-test\/wp-json\/wp\/v2\/news"}],"about":[{"href":"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-test\/wp-json\/wp\/v2\/types\/news"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-test\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16107"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-test\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16105"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}