{"id":17851,"date":"2020-09-07T06:54:00","date_gmt":"2020-09-07T09:54:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufmg.br\/?post_type=news&#038;p=17851"},"modified":"2026-02-27T17:53:18","modified_gmt":"2026-02-27T20:53:18","slug":"universidade-e-instrumento-para-emancipacao-etica-humana-afirma-joao-antonio-de-paula","status":"publish","type":"news","link":"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-test\/comunicacao\/noticias\/pesquisa-e-inovacao\/universidade-e-instrumento-para-emancipacao-etica-humana-afirma-joao-antonio-de-paula\/","title":{"rendered":"Universidade \u00e9 instrumento para emancipa\u00e7\u00e3o \u00e9tica humana, afirma Jo\u00e3o Antonio de Paula"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Neste 7 de setembro, dia da Independ\u00eancia do Brasil, a UFMG completa 93 anos. Como parte das comemora\u00e7\u00f5es, ser\u00e1 realizada&nbsp;amanh\u00e3, dia 8, \u00e0s 10h, uma&nbsp;<a href=\"https:\/\/ufmg.br\/comunicacao\/noticias\/tempos-presentes-celebra-93-anos-da-ufmg-e-300-anos-de-minas\">edi\u00e7\u00e3o especial do ciclo de&nbsp;confer\u00eancias&nbsp;<em>Tempos presentes<\/em><\/a><em><\/em>, com o tema&nbsp;<em>UFMG, 93 anos, e Minas Gerais, 300 anos: encontro de hist\u00f3rias<\/em>. Um dos participantes do&nbsp;evento, ao lado da reitora&nbsp;da UFMG,&nbsp;Sandra Regina Goulart Almeida, e do presidente da Assembleia Legislativa de Minas, Agostinho Patrus, \u00e9 o professor Jo\u00e3o Antonio de Paula,&nbsp;da Faculdade de Ci\u00eancias Econ\u00f4micas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Jo\u00e3o Antonio analisou o&nbsp;encontro das&nbsp;trajet\u00f3rias&nbsp;do estado e da Universidade&nbsp;no livro&nbsp;<em><a href=\"https:\/\/www.editoraufmg.com.br\/#\/pages\/obra\/708\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">A presen\u00e7a do esp\u00edrito de Minas: a UFMG e o desenvolvimento de Minas Gerais<\/a><\/em>, lan\u00e7ado no ano passado pela Editora UFMG. Na obra, o professor \u2013 que \u00e9 conhecido por seu tr\u00e2nsito entre campos distintos do saber, como a literatura e as ci\u00eancias sociais \u2013 faz uma cartografia dos caminhos percorridos pela UFMG da sua funda\u00e7\u00e3o aos dias de hoje, relacionando as contribui\u00e7\u00f5es oferecidas pela Universidade \u00e0s mais diversas \u00e1reas no estado durante esse processo mesmo em que se consolidava.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Portal UFMG conversou com Jo\u00e3o Antonio sobre esse encontro de hist\u00f3rias, com foco no que ele pode nos dizer sobre o tempo presente e as aporias que a contemporaneidade nos tem apresentado, como a atual pandemia e a ascens\u00e3o da extrema direita no Brasil e no mundo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Em seu livro, voc\u00ea defende que as hist\u00f3rias da UFMG&nbsp;e de Minas Gerais&nbsp;em muitos aspectos se confundem. Como isso se d\u00e1?<\/strong><br>De in\u00edcio, \u00e9 preciso entender que \u201cMinas Gerais \u00e9 muitas. S\u00e3o, pelo menos, v\u00e1rias Minas\u201d, como escreveu Guimar\u00e3es Rosa. De fato, Minas \u00e9 uma realidade polif\u00f4nica, contradit\u00f3ria: existe uma tens\u00e3o pr\u00f3pria na constitui\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o, da capitania. Afinal, como nasceu Minas Gerais? Nasceu da rebeldia. O estado nasceu de movimentos \u201cdisruptivos\u201d, digamos assim, como a Guerra dos Emboabas [<em>1707-1709, disputa pelo direito \u00e0&nbsp;explora\u00e7\u00e3o das jazidas de ouro da regi\u00e3o<\/em>] e a Revolta de Vila Rica, em 1720, contra a cria\u00e7\u00e3o de casas de fundi\u00e7\u00e3o e instrumentos de repress\u00e3o e controle do governo portugu\u00eas. Ent\u00e3o, isso marca o nascimento de Minas: a rebeldia contra as tentativas de controle e repress\u00e3o \u00e9 o mote da cria\u00e7\u00e3o da capitania. H\u00e1, portanto, esse lado libert\u00e1rio, esse lado disruptivo, insurgente, nas origens do estado. Ao mesmo tempo, h\u00e1 todo um outro lado conservador, repressivo. Esses lados n\u00e3o se colocam nem como pura contradi\u00e7\u00e3o, exatamente, nem como concilia\u00e7\u00e3o, mas em estado de tens\u00e3o permanente. Em Minas, voc\u00ea tem um movimento de permanente tensionamento que resulta numa terceira coisa, que n\u00e3o \u00e9 apaziguadora: o que voc\u00ea tem \u00e9 uma inquieta\u00e7\u00e3o que vai se transformando, vai se atualizando ao longo do tempo. N\u00e3o h\u00e1 um \u201cponto morto\u201d, em que se resolvem as contradi\u00e7\u00f5es: h\u00e1 uma positividade nessa tens\u00e3o. Minas Gerais \u00e9 esse enigma, esse eterno se interrogar, o eterno voltar atr\u00e1s para olhar para as origens, tentando entender o que vem pela frente. \u00c9 uma inquieta\u00e7\u00e3o positiva, que nos convoca a estar o tempo todo interpelando o que est\u00e1 acontecendo.<\/p>\n\n\n\n\n\t<figure data-size=\"small\"\n\t\tclass=\"group space-y-2 data-[size=small]:w-[21rem] sm:data-[size=medium]:w-[40rem] lg:data-[size=small]:float-left lg:data-[size=small]:mr-8 mx-auto\">\n\t\t\t\t\t<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"336\" height=\"445\" src=\"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-test\/app\/uploads\/2026\/02\/Captura-de-tela-2026-02-27-130947-336x445.png\" class=\"group-data-[size=small]:w-[21rem] group-data-[size=small]:h-[29.75rem] sm:group-data-[size=medium]:w-[40rem] sm:group-data-[size=small]:h-[27.8125rem] lg:group-data-[size=medium]:h-[27.8125rem] group-data-[size=large]:w-full group-data-[size=large]:h-[9.875rem] md:group-data-[size=large]:h-[27.8125rem] rounded object-fill\" alt=\"\" \/>\t\t\t\t<div\n\t\t\tclass=\"group-data-[size=small]:w-[21rem] px-3 pt-3 pb-6 md:px-6 group-data-[size=small]:px-3 text-neutral-300 text-xs md:text-sm\">\n\t\t\t<figcaption title=\"Rela\u00e7\u00e3o entre as hist\u00f3rias da UFMG e de Minas Gerais \u00e9 tema do livro de Jo\u00e3o Antonio, lan\u00e7ado no ano passado\n\" class=\"block line-clamp-4 md:line-clamp-3\">\n\t\t\t\tRela\u00e7\u00e3o entre as hist\u00f3rias da UFMG e de Minas Gerais \u00e9 tema do livro de Jo\u00e3o Antonio, lan\u00e7ado no ano passado\n\t\t\t<\/figcaption>\n\t\t\t<cite\n\t\t\t\tclass=\"relative block not-italic after:absolute after:left-0 after:right-0 after:-bottom-3 after:h-px after:bg-neutral-100\">\n\t\t\t\tImagem: Divulga\u00e7\u00e3o | Editora UFMG\t\t\t<\/cite>\n\t\t<\/div>\n\t<\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>E como isso se relaciona com a hist\u00f3ria da Universidade?<br><\/strong>\u00c9 que o nascimento e a concep\u00e7\u00e3o da UFMG tamb\u00e9m se organizaram em torno dessa tens\u00e3o, no \u00e2mbito dessa tens\u00e3o. Pensemos na Faculdade de Direito, por exemplo, que \u00e9 a primeira unidade da Universidade, criada em 1892 [<em>A UFMG, propriamente, seria inaugurada em 1927, como Universidade de Minas Gerais<\/em>]. Se entre os seus fundadores havia republicanos hist\u00f3ricos, como Jo\u00e3o Pinheiro, que era um l\u00edder entre os republicanos, tamb\u00e9m havia monarquistas ferrenhos, como Afonso Arinos, que morreu na Europa em 1916, para onde emigrou desgostoso, porque n\u00e3o queria compactuar com a rep\u00fablica. Afonso Arinos morreu sem nunca ter aberto m\u00e3o da monarquia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A universidade ent\u00e3o reproduz esse embate entre passado e futuro, progresso e conservadorismo&#8230;<\/strong><br>\u00c9 tamb\u00e9m interessante lembrar que Afonso Arinos foi o primeiro autor regionalista brasileiro.&nbsp;<em>Pelo sert\u00e3o<\/em>, um livro de contos seu&nbsp;[<em>publicado originalmente em 1898<\/em>], inaugura essa tradi\u00e7\u00e3o do regionalismo, que vai estourar no Nordeste e no Rio Grande do Sul mais tarde, nos anos 1930. O regionalismo \u00e9 essa literatura que tenta fixar a paisagem moral e f\u00edsica das regi\u00f5es do pa\u00eds. O Afonso Arinos, um dos fundadores da UFMG, criou essa tradi\u00e7\u00e3o. Contudo, entre esses mesmos fundadores tamb\u00e9m estava Raimundo Correia, um dos tr\u00eas grandes parnasianos brasileiros [<em>com Alberto de&nbsp;Oliveira e Olavo Bilac<\/em>]. Tem-se&nbsp;a\u00ed, ent\u00e3o, na constitui\u00e7\u00e3o da Universidade, um representante dessa literatura social, cr\u00edtica, que \u00e9 o Afonso Arinos, e um representante da&nbsp;literatura can\u00f4nica do parnasianismo, uma literatura que busca o verso perfeito, o verso burilado at\u00e9 o limite, representada por Raimundo Correia. Toda essa tens\u00e3o est\u00e1 na base da Universidade; ela nasce sobre essa tens\u00e3o constitutiva, a mesma tens\u00e3o constitutiva do estado de Minas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Tens\u00e3o entre o antigo e o moderno?<\/strong><br>De fato, o modernismo mineiro nasceu na UFMG. Se voc\u00ea pensar nos grandes nomes do nosso modernismo, muitos&nbsp;foram alunos ou professores, e tiveram, de algum modo,&nbsp;v\u00ednculos com a Universidade. An\u00edbal Machado, Drummond, Em\u00edlio Moura, Ciro dos Anjos, Pedro Nava, Rodrigo Melo Franco de Andrade, Guimar\u00e3es Rosa&#8230; Minas tem essa tradi\u00e7\u00e3o modernista muito forte, que tem la\u00e7os indissol\u00faveis com a Universidade. Mas, por outro lado, voc\u00ea tamb\u00e9m tem uma produ\u00e7\u00e3o classicista forte, que \u00e9 tamb\u00e9m UFMG. Tivemos, por exemplo, figuras como Ardu\u00edno Bolivar, que foi professor na Faculdade de Ci\u00eancias Econ\u00f4micas e na Faculdade de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas. Ardu\u00edno era um grande latinista, voltado para a cultura cl\u00e1ssica. Isso tudo est\u00e1 muito presente na hist\u00f3ria da UFMG: tanto a forma cl\u00e1ssica&nbsp;quanto o lado modernista, irreverente. Essa \u00e9 uma tens\u00e3o que vai sendo constru\u00edda e reconstru\u00edda ao longo do tempo&nbsp;e que se reflete na forma como tend\u00eancias como o barroco, por exemplo, que era a arte da contrarreforma e do absolutismo na Europa, se transformaram, no Brasil, em instrumentos de libera\u00e7\u00e3o. Em Minas, houve isso: nos apropriamos de formas europeias para dar a elas formas inovadoras, transgredindo o c\u00e2none.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>No seu livro, voc\u00ea afirma que as motiva\u00e7\u00f5es para a cria\u00e7\u00e3o da UFMG remontam ao movimento da Inconfid\u00eancia Mineira, no final do s\u00e9culo 18. Como isso se d\u00e1?<\/strong><br>Sobre isso, \u00e9 interessante lembrar que a Inconfid\u00eancia Mineira teve duas etapas principais de interpreta\u00e7\u00e3o&nbsp;no Brasil. Na perspectiva oficial, do in\u00edcio do s\u00e9culo 19, ela foi um movimento desvalorizado e rejeitado, no sentido de ter sido um movimento antibragantino. Contudo, quando veio a rep\u00fablica, o sinal mudou, e passou a haver uma mitifica\u00e7\u00e3o da Inconfid\u00eancia. Antes rejeitado, o movimento passou a ser entendido como fundador da nacionalidade, em uma perspectiva um tanto transcendente. Uma esp\u00e9cie de hagiografia foi estabelecida, e Tiradentes, que antes era uma figura malvista, passa a ser considerado her\u00f3i nacional. Depois, num terceiro momento, que \u00e9 o momento em que estamos agora, h\u00e1 uma tend\u00eancia a negar essa segunda interpreta\u00e7\u00e3o&nbsp;mediante um esfor\u00e7o de desmitifica\u00e7\u00e3o da Inconfid\u00eancia, que acaba por v\u00ea-la como algo irrelevante. A meu ver, essa \u00e9 uma perspectiva equivocada. A Inconfid\u00eancia teve as suas limita\u00e7\u00f5es, as suas contradi\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o foi algo irrelevante, desimportante. Os inconfidentes tinham ideias avan\u00e7adas. Eles tinham&nbsp;um projeto, que inclu\u00eda a implanta\u00e7\u00e3o de f\u00e1bricas, a mudan\u00e7a da capital, a melhoria de transportes e comunica\u00e7\u00f5es. Entre os inconfidentes, havia quem defendesse o fim da escravid\u00e3o e a cria\u00e7\u00e3o de um estado nacional, que uns queriam que fosse republicano e outros pretendiam&nbsp;que se constitu\u00edsse&nbsp;no \u00e2mbito da monarquia constitucional. O que ocorre \u00e9 que nesse projeto dos inconfidentes constava a cria\u00e7\u00e3o de uma universidade, que terminou por ser a UFMG: a universidade de todos os mineiros, um centro de reflex\u00e3o, de pensamento, de educa\u00e7\u00e3o ligado \u00e0s ra\u00edzes hist\u00f3ricas de Minas.<\/p>\n\n\n\n\n\t<figure data-size=\"medium\"\n\t\tclass=\"group space-y-2 data-[size=small]:w-[21rem] sm:data-[size=medium]:w-[40rem] lg:data-[size=small]:float-left lg:data-[size=small]:mr-8 mx-auto\">\n\t\t\t\t\t<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"445\" src=\"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-test\/app\/uploads\/2026\/02\/Captura-de-tela-2026-02-27-131501-640x445.png\" class=\"group-data-[size=small]:w-[21rem] group-data-[size=small]:h-[29.75rem] sm:group-data-[size=medium]:w-[40rem] sm:group-data-[size=small]:h-[27.8125rem] lg:group-data-[size=medium]:h-[27.8125rem] group-data-[size=large]:w-full group-data-[size=large]:h-[9.875rem] md:group-data-[size=large]:h-[27.8125rem] rounded object-fill\" alt=\"\" \/>\t\t\t\t<div\n\t\t\tclass=\"group-data-[size=small]:w-[21rem] px-3 pt-3 pb-6 md:px-6 group-data-[size=small]:px-3 text-neutral-300 text-xs md:text-sm\">\n\t\t\t<figcaption title=\"Jo\u00e3o Antonio: UFMG se originou de tens\u00e3o que \u00e9 constituinte de Minas Gerais\n\" class=\"block line-clamp-4 md:line-clamp-3\">\n\t\t\t\tJo\u00e3o Antonio: UFMG se originou de tens\u00e3o que \u00e9 constituinte de Minas Gerais\n\t\t\t<\/figcaption>\n\t\t\t<cite\n\t\t\t\tclass=\"relative block not-italic after:absolute after:left-0 after:right-0 after:-bottom-3 after:h-px after:bg-neutral-100\">\n\t\t\t\tFoto: Foca Lisboa | UFMG\t\t\t<\/cite>\n\t\t<\/div>\n\t<\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Esse embate entre perspectivas opostas parece fecundo, no sentido de promover a evolu\u00e7\u00e3o dos modos de vida e de pensamento. Contudo, com o esgar\u00e7amento que as rela\u00e7\u00f5es sociais alcan\u00e7aram na contemporaneidade, e particularmente no Brasil, essas rela\u00e7\u00f5es de tens\u00e3o parecem estar fomentando mais o extremismo que o desenvolvimento humano. Em um tempo em que o mundo se torna cada vez mais refrat\u00e1rio ao contradit\u00f3rio e \u00e0 complexidade, qual o caminho para a universidade, que tem essas no\u00e7\u00f5es como sua pr\u00f3pria raz\u00e3o de ser?<br><\/strong>Essa pergunta \u00e9 muito interessante, eu tenho pensado muito sobre isso. Qualquer resposta para isso passa por se recuperar o sentido de ser de uma universidade. Para que serve a universidade, o que \u00e9 espec\u00edfico da universidade? Entendo que h\u00e1 pelo menos quatro coisas a\u00ed. Primeiro, temos a universidade como uma esp\u00e9cie de \u201creserva moral\u201d da sociedade, de reserva de certos valores universais. Estamos falando das ideias de liberdade, de justi\u00e7a, de verdade. Isto \u00e9 parte da raz\u00e3o de ser da universidade: reafirmar esses valores universais. Esse \u00e9 seu compromisso inegoci\u00e1vel. Em segundo lugar, temos a universidade como o lugar de preserva\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio cultural da humanidade. A universidade \u00e9 uma esp\u00e9cie de reposit\u00f3rio do que a humanidade construiu ao longo do tempo, o reposit\u00f3rio do conhecimento das grandes conquistas da civiliza\u00e7\u00e3o. Uma terceira dimens\u00e3o da universidade \u00e9 ser o lugar da produ\u00e7\u00e3o do conhecimento novo. Nesse sentido, sua raz\u00e3o de ser n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 conservar o conhecimento, conservar o patrim\u00f4nio cultural estabelecido, mas&nbsp;<em>avan\u00e7ar<\/em>, inventar, inovar: a sua fun\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m prospectar. E por fim h\u00e1 uma quarta: a dimens\u00e3o da universidade como um dos instrumentos da emancipa\u00e7\u00e3o humana, que abrange&nbsp;liberdade, igualdade, diversidade e sustentabilidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Do que falamos quando falamos em emancipa\u00e7\u00e3o?<\/strong><br>Estamos falando da universidade como um espa\u00e7o \u00e9tico. A palavra \u00e9tica vem do termo grego&nbsp;<em>\u00e9thos<\/em>, que quer dizer tanto morada, abrigo,&nbsp;como h\u00e1bito, costume, comportamento. A \u00e9tica seria ent\u00e3o o h\u00e1bito, o costume, o comportamento que se exige de todos para a melhor vida na cidade para todos, isto \u00e9, a vida reta, justa, bela. Esse \u00e9 um compromisso fundamental da universidade, um compromisso que \u00e9 de fato decisivo, do qual ela n\u00e3o pode fugir [<em>a defesa e o fomento&nbsp;dessa \u00e9tica<\/em>]. A universidade \u00e9 esse lugar emancipat\u00f3rio, que permite ir al\u00e9m do que est\u00e1 dado, ir al\u00e9m do que est\u00e1 posto, inventar um mundo, inventar novas possibilidades, novas sociabilidades [<em>com vistas \u00e0 conquista do bem-estar coletivo<\/em>]. \u00c9 claro que a universidade n\u00e3o faz isso sozinha, mas ela tem um compromisso fundamental com isso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A pandemia parece nos trazer o exemplo perfeito para essa quest\u00e3o, quando pensamos no&nbsp;uso \u2013 mais especificamente, a falta dele \u2013 das m\u00e1scaras pela popula\u00e7\u00e3o&nbsp;ou no&nbsp;discurso antivacina, que est\u00e1 outra vez recrudescendo no pa\u00eds.<br><\/strong>A pandemia veio mostrar muito claramente isso. As primeiras manifesta\u00e7\u00f5es desse governo que est\u00e1 a\u00ed [<em>aqui, refere-se&nbsp;especificamente ao n\u00edvel federal<\/em>] diziam mais ou menos o seguinte: \u201cmuita gente vai morrer, vamos deixar que morram, do contr\u00e1rio seria preciso gastar muito dinheiro\u201d, sob a no\u00e7\u00e3o&nbsp;de que a vida humana tem um pre\u00e7o, de que a vida humana pode ser medida. O que quero dizer \u00e9 que esse tipo de calculabilidade \u00e9 algo completamente incompat\u00edvel com a ideia de universidade de que estamos falando aqui, a universidade no sentido emancipat\u00f3rio, no sentido cr\u00edtico que ela deve ter. Ent\u00e3o \u00e9 importante notar que, nesse momento de pandemia, a universidade ocupou um papel muito importante de denunciar essas fal\u00e1cias mercantis, individualistas e privatistas, reiterando o sentido dessa institui\u00e7\u00e3o&nbsp;como instrumento cr\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>N\u00e3o raro, esses discursos mercantis se revestem de uma aura de racionalidade cont\u00e1bil&#8230;<\/strong><br>A tend\u00eancia dominante na modernidade \u00e9 enfatizar uma forma de racionalidade como simples raz\u00e3o instrumental. De novo, vamos mobilizar a etimologia. A ideia de raz\u00e3o tem duas matrizes na tradi\u00e7\u00e3o ocidental, uma grega e a outra latina. A tradi\u00e7\u00e3o grega vem de&nbsp;<em>legos<\/em>, que deu \u201cl\u00f3gica\u201d.&nbsp;<em>Legos&nbsp;<\/em>significa ligar, articular, pensar. J\u00e1 a tradi\u00e7\u00e3o latina vem de&nbsp;<em>ratio<\/em>, que significa contar, calcular, contabilizar, controlar. Ent\u00e3o \u00e9 preciso perceber que a pr\u00f3pria ideia de raz\u00e3o tem esses dois lados, ela se constitui com base em&nbsp;uma tens\u00e3o: se, de um lado,&nbsp;diz respeito a contar, calcular, contabilizar, de outro lado&nbsp;diz respeito a raciocinar, pensar, articular.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 tamb\u00e9m um outro n\u00facleo de tens\u00e3o importante, que \u00e9 a ideia de educa\u00e7\u00e3o e de cultura, que remete&nbsp;a duas matrizes. Uma \u00e9 a matriz grega, com a ideia de&nbsp;<em>paideia<\/em>, de forma\u00e7\u00e3o. \u00c9 de onde nasceu \u201cpedagogia\u201d. Aqui, educar \u00e9 formar \u2013 formar plenamente, e n\u00e3o apenas do ponto de vista instrumental e imediato. Educa\u00e7\u00e3o \u00e9, ent\u00e3o, formar para o melhor, isto \u00e9, para que se possa contemplar as possibilidades do melhor. J\u00e1 pela tradi\u00e7\u00e3o latina, tem-se a ideia de cultura, que remete a cultivo, cultivar, cultivar o solo, plantar. Tem-se a\u00ed, portanto, duas ideias de educa\u00e7\u00e3o, a de cultivar e a de formar, e as duas s\u00e3o importantes. A universidade seria, ent\u00e3o, o lugar para explorar todas essas dimens\u00f5es por um vi\u00e9s emancipat\u00f3rio, isto \u00e9, com o sentido de ir para al\u00e9m do imediato, do instrumental. Estamos falando no sentido de formar para a humanidade livre, para a humanidade emancipada \u2013 emancipada em todos os sentidos. Tudo isso se relaciona com a valoriza\u00e7\u00e3o do interdisciplinar, do transdisciplinar, da diversidade, da alteridade, do n\u00e3o pragm\u00e1tico do mundo \u2013 a valoriza\u00e7\u00e3o da imagina\u00e7\u00e3o criadora, enfim. Tudo isso est\u00e1 presente na raz\u00e3o de ser da universidade \u2013 e a nossa Universidade, em particular, tem valorizado muito isso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica da Universidade, neste per\u00edodo de pandemia, me parece ser um exemplo disso. Via de regra, os artigos e notas t\u00e9cnicas que v\u00eam sendo publicados pelos pesquisadores da UFMG seguem&nbsp;essa perspectiva humanista, como no caso dos alertas feitos pelos pesquisadores da Faculdade de Ci\u00eancias Econ\u00f4micas sobre os riscos vividos pelos moradores das periferias urbanas \u2013 ou o reiterado alerta que tem sido feito sobre a fal\u00e1cia de se colocar em oposi\u00e7\u00e3o sa\u00fade e economia, quando na verdade&nbsp;elas&nbsp;n\u00e3o concorrem entre si.<\/strong><br>De fato, eu mesmo escrevi um livro sobre essas rela\u00e7\u00f5es entre a hist\u00f3ria, o capitalismo e as epidemias. Vai ser publicado em breve pela Editora UFMG. Eu quis pensar as epidemias no capitalismo e o pr\u00f3prio significado do capitalismo, isto \u00e9, como \u00e9 que ele combate ou n\u00e3o combate, como \u00e9 que ele enfrenta o problema das pandemias. Porque o capitalismo tem um \u201cgargalo\u201d na hora de enfrentar problemas dessa envergadura; ele n\u00e3o consegue enfrentar nada que n\u00e3o seja resolvido pela l\u00f3gica de mercado. Quando o mercado n\u00e3o d\u00e1 conta, o capitalismo entra em colapso, fica paralisado. \u00c9&nbsp;o que estamos vendo agora. A pandemia est\u00e1 explicitando mais uma vez esses limites do capitalismo liberal, isto \u00e9, a incompatibilidade entre a vida humana democr\u00e1tica e a l\u00f3gica do lucro, do imediatismo, do individualismo, do privatismo. A pandemia atual explicitou algo parecido com o que ocorreu em 1929. A crise de 1929 obrigou o capitalismo a uma reforma importante. Obviamente, na medida em que os efeitos positivos do reformismo foram passando, ele voltou a impor outra vez a sua l\u00f3gica privatista, imediatista.<\/p>\n\n\n\n\n\t<figure data-size=\"small\"\n\t\tclass=\"group space-y-2 data-[size=small]:w-[21rem] sm:data-[size=medium]:w-[40rem] lg:data-[size=small]:float-left lg:data-[size=small]:mr-8 mx-auto\">\n\t\t\t\t\t<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"336\" height=\"445\" src=\"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-test\/app\/uploads\/2026\/02\/Captura-de-tela-2026-02-27-131153-e1772208785889-336x445.png\" class=\"group-data-[size=small]:w-[21rem] group-data-[size=small]:h-[29.75rem] sm:group-data-[size=medium]:w-[40rem] sm:group-data-[size=small]:h-[27.8125rem] lg:group-data-[size=medium]:h-[27.8125rem] group-data-[size=large]:w-full group-data-[size=large]:h-[9.875rem] md:group-data-[size=large]:h-[27.8125rem] rounded object-fill\" alt=\"\" \/>\t\t\t\t<div\n\t\t\tclass=\"group-data-[size=small]:w-[21rem] px-3 pt-3 pb-6 md:px-6 group-data-[size=small]:px-3 text-neutral-300 text-xs md:text-sm\">\n\t\t\t<figcaption title=\"Jo\u00e3o Antonio: crise de 2008 n\u00e3o acabou\" class=\"block line-clamp-4 md:line-clamp-3\">\n\t\t\t\tJo\u00e3o Antonio: crise de 2008 n\u00e3o acabou\t\t\t<\/figcaption>\n\t\t\t<cite\n\t\t\t\tclass=\"relative block not-italic after:absolute after:left-0 after:right-0 after:-bottom-3 after:h-px after:bg-neutral-100\">\n\t\t\t\tFoto: Foca Lisboa | UFMG\t\t\t<\/cite>\n\t\t<\/div>\n\t<\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Falando em crises, fico com a sensa\u00e7\u00e3o de que&nbsp;desde a crise de 2008 a gente se manteve em certo estado de suspens\u00e3o&#8230;<br><\/strong>A crise que come\u00e7ou em 2008 n\u00e3o acabou, ela foi agora atravessada pela pandemia. Se extrapolamos a quest\u00e3o puramente biol\u00f3gica, epidemiol\u00f3gica, o que \u00e9 esta pandemia? \u00c9 algo que explicita a incompatibilidade desse mundo administrado de maneira individualista, privatista, com a preserva\u00e7\u00e3o do interesse p\u00fablico. Em face da pandemia, at\u00e9 um ultraliberal \u00e9 obrigado a reconhecer a fal\u00eancia de seus dogmas, de seus interesses, a sua incapacidade de lidar com realidades complexas e entend\u00ea-las. A pandemia deixa claro que o sistema que tem vigorado em termos sociais e pol\u00edticos n\u00e3o \u00e9 capaz de lidar com as quest\u00f5es realmente importantes da vida humana. E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a pandemia, claro. Ela tem uma intensidade particular neste momento, mas voc\u00ea tem fen\u00f4menos como o aquecimento global, a crise ambiental&#8230; \u00c9 preciso compreender que \u00e9 a exacerba\u00e7\u00e3o imperialista o que provoca essa vaga de migra\u00e7\u00f5es for\u00e7adas no mundo inteiro, milh\u00f5es e milh\u00f5es de pessoas vagando sem nenhum lugar de ficar, pessoas sem terra, sem casa, sem pa\u00eds; n\u00f4mades for\u00e7ados pela guerra, pela fome, pela desertifica\u00e7\u00e3o, pela viol\u00eancia etnorracista. Todos esses fen\u00f4menos est\u00e3o ligados. Estamos falando de um mal-estar generalizado que \u00e9 fruto de um tipo de ordem social que o capitalismo cria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Mas o desenvolvimento, o dito \u201ccrescimento das economias\u201d&#8230; essa n\u00e3o \u00e9 uma necessidade incontorn\u00e1vel?<\/strong><br>Celso Furtado, um intelectual decisivo para o pensamento brasileiro, j\u00e1 dizia que desenvolvimento n\u00e3o \u00e9 crescimento. Definitivamente. Voc\u00ea pode crescer e n\u00e3o se desenvolver. Que \u00e9 o caso brasileiro. De 1900 a 1980, o Brasil foi a segunda economia que mais cresceu no mundo. O pa\u00eds s\u00f3 n\u00e3o cresceu mais que o Jap\u00e3o. Agora, que crescimento foi esse? Foi o crescimento do mesmo, um crescimento que reproduziu e reiterou a concentra\u00e7\u00e3o da renda, a desigualdade, a exclus\u00e3o, a marginaliza\u00e7\u00e3o, o racismo \u2013 em suma, um crescimento que manteve as mazelas hist\u00f3ricas do pa\u00eds. Isso n\u00e3o \u00e9 desenvolvimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O que \u00e9 ent\u00e3o desenvolvimento?<\/strong><br>Vou abusar de novo da etimologia. Em franc\u00eas, desenvolvimento [<em>d\u00e9velopement<\/em>] significa desenvelopar, tirar do envelope: pegar alguma coisa que est\u00e1 oculta e coloc\u00e1-la a nu. Significa desvelar, revelar, explicitar. Em espanhol, desenvolvimento [<em>desarollo<\/em>] nos remete a \u201ctirar a rolha\u201d, isto \u00e9: permitir que algo que est\u00e1 oculto se expresse, se manifeste, como&nbsp;o cheiro, a fragr\u00e2ncia do vinho. O que quero dizer com isso \u00e9 que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, o desenvolvimento s\u00f3 \u00e9 leg\u00edtimo quando \u00e9 capaz de ser isso, de fazer isso: possibilitar que o que est\u00e1 contido, aprisionado, se liberte;&nbsp;explorar as inesgot\u00e1veis reservas da criatividade humana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Na pr\u00e1tica, como essa ideia pode se manifestar?<\/strong><br>No caso do Brasil, isso diria respeito ao pa\u00eds valorizar as suas tradi\u00e7\u00f5es. Voc\u00ea n\u00e3o pode simplesmente importar um modelo, seja ele qual for, de tecnologia ou de arte. Minas Gerais \u00e9 interessante nesse sentido. A hist\u00f3ria do estado \u00e9 de tomar o modelo estrangeiro e transform\u00e1-lo, transfigur\u00e1-lo. Desenvolvimento significaria a mesma coisa: tomar uma tecnologia importante, que vem de fora, mas fazer ela&nbsp;ela expressar&nbsp;os interesses do que est\u00e1 aqui, a solu\u00e7\u00e3o de nossas mazelas cr\u00f4nicas. Esse \u00e9 o sentido de desenvolvimento. E isso passa por transforma\u00e7\u00f5es estruturais. Do ponto de vista do Celso Furtado, desenvolvimento significa transforma\u00e7\u00e3o&#8230; significa&nbsp;<em>revolu\u00e7\u00e3o<\/em>. Ainda que ele n\u00e3o fale em uma revolu\u00e7\u00e3o social, \u00e9 disso que se trata. Transforma\u00e7\u00f5es sociais emancipat\u00f3rias: desenvolvimento \u00e9 isso. Esse \u00e9 o compromisso efetivo do desenvolvimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Ao que parece, estamos em face de um impasse, neste in\u00edcio de s\u00e9culo. Qual a sa\u00edda?<\/strong><br>No poema&nbsp;<em>Prece de um mineiro no Rio<\/em>, Drummond escreve: \u201cEsp\u00edrito de Minas me visita (&#8230;) \/ lan\u00e7a o seu claro raio ordenador\u201d. Drummond est\u00e1 na cidade grande, cheia de barulhos. Ent\u00e3o, em uma noite, no tumulto da cidade, ele sente essa presen\u00e7a. Alguma coisa se imp\u00f5e a ele, desperta-o daquele marasmo&nbsp;e lan\u00e7a sobre o seu mundo um claro raio ordenador. O que ele quer dizer \u00e9 que existe uma possibilidade de compreender esse nosso mundo ca\u00f3tico. Existe um \u201cfio vermelho\u201d, capaz de enla\u00e7ar tudo isso. E eu diria que esse fio vermelho que a tudo pode enla\u00e7ar&nbsp;\u00e9 que precisa ser puxado. Para entender o que est\u00e1 acontecendo, \u00e9 preciso entender que tudo isso s\u00e3o manifesta\u00e7\u00f5es, s\u00e3o express\u00f5es de um certo tipo de ordem social. A gente s\u00f3 vai conseguir superar tudo isso se a gente entender que h\u00e1 uma l\u00f3gica por tr\u00e1s disso que aparece como ca\u00f3tico. Eventos e processos que se apresentam como fen\u00f4menos isolados, desconexos, t\u00eam, de fato, uma determina\u00e7\u00e3o comum, s\u00e3o resultados concretos do modo de funcionamento do capitalismo. A precariza\u00e7\u00e3o e a superexplora\u00e7\u00e3o do trabalho, a retirada de direitos sociais, a concentra\u00e7\u00e3o da renda e da riqueza, a destrui\u00e7\u00e3o ambiental, o \u00f3dio \u00e0 democracia: essas coisas s\u00e3o manifesta\u00e7\u00f5es do capitalismo contempor\u00e2neo.<\/p>\n\n\n\n\n\t<figure data-size=\"small\"\n\t\tclass=\"group space-y-2 data-[size=small]:w-[21rem] sm:data-[size=medium]:w-[40rem] lg:data-[size=small]:float-left lg:data-[size=small]:mr-8 mx-auto\">\n\t\t\t\t\t<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"336\" height=\"445\" src=\"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-test\/app\/uploads\/2026\/02\/Captura-de-tela-2026-02-27-131740-e1772209166745-336x445.png\" class=\"group-data-[size=small]:w-[21rem] group-data-[size=small]:h-[29.75rem] sm:group-data-[size=medium]:w-[40rem] sm:group-data-[size=small]:h-[27.8125rem] lg:group-data-[size=medium]:h-[27.8125rem] group-data-[size=large]:w-full group-data-[size=large]:h-[9.875rem] md:group-data-[size=large]:h-[27.8125rem] rounded object-fill\" alt=\"\" \/>\t\t\t\t<div\n\t\t\tclass=\"group-data-[size=small]:w-[21rem] px-3 pt-3 pb-6 md:px-6 group-data-[size=small]:px-3 text-neutral-300 text-xs md:text-sm\">\n\t\t\t<figcaption title=\"Miss\u00e3o da universidade passa por se manter imune a modismos e resistir ao mercado, defende Jo\u00e3o Antonio\" class=\"block line-clamp-4 md:line-clamp-3\">\n\t\t\t\tMiss\u00e3o da universidade passa por se manter imune a modismos e resistir ao mercado, defende Jo\u00e3o Antonio\t\t\t<\/figcaption>\n\t\t\t<cite\n\t\t\t\tclass=\"relative block not-italic after:absolute after:left-0 after:right-0 after:-bottom-3 after:h-px after:bg-neutral-100\">\n\t\t\t\tFoto: Foca Lisboa | UFMG\t\t\t<\/cite>\n\t\t<\/div>\n\t<\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como assim?<br><\/strong>Hoje, para tentar evitar a queda da taxa de lucro, o capitalismo lan\u00e7a m\u00e3o de uma s\u00e9rie de instrumentos pol\u00edticos, econ\u00f4micos, tecnol\u00f3gicos que buscam negar as contradi\u00e7\u00f5es que levam \u00e0s crises capitalistas. Isso \u00e9 vis\u00edvel aqui no Brasil. Aqui, o capitalismo apresenta especificidades, \u00e9 um capitalismo dependente, perif\u00e9rico, que, ao mesmo tempo em que se mant\u00e9m subordinado aos interesses do grande capital internacional, tem como caracter\u00edstica central uma extremada concentra\u00e7\u00e3o da renda e da riqueza. Aqui n\u00e3o houve nem reforma agr\u00e1ria nem reforma urbana, e se preserva in\u00edqua estrutura tribut\u00e1ria, regressiva e injusta. Todas as vezes que a mobiliza\u00e7\u00e3o social amea\u00e7a os privil\u00e9gios dos poderosos, eles t\u00eam mobilizado um variado conjunto de instrumentos que v\u00e3o da coopta\u00e7\u00e3o \u00e0 repress\u00e3o direta e brutal. Foi assim no passado; est\u00e1 sendo assim agora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como o poema do Drummond entra nessa hist\u00f3ria?<\/strong><br>Drummond escreve \u201cEsp\u00edrito mineiro circunspecto \/ talvez, mas encerrando uma part\u00edcula \/ de fogo embriagador, que lavra s\u00fabito\u201d. \u00c9 essa a ideia. O que \u00e9 Minas? \u00c9 essa realidade aparentemente circunspecta, contida, mas que cont\u00e9m um grau de loucura, alguma coisa que queima&nbsp;e que, em algum momento, se expressa por meio&nbsp;de uma a\u00e7\u00e3o transformadora, contestat\u00f3ria, emancipat\u00f3ria. Tudo isso s\u00e3o elementos da cultura mineira que a Universidade tem tentado preservar, e esses elementos&nbsp;s\u00e3o mais que necess\u00e1rios hoje em dia. Essa coisa que lavra s\u00fabito, essa coisa que explode como resposta contra a vida danificada. Adorno nos coloca essa no\u00e7\u00e3o importante, de se perceber o capitalismo como um sistema de produ\u00e7\u00e3o de vidas danificadas. Ent\u00e3o, \u00e9 preciso combater a vida danificada mobilizando essas energias, as pot\u00eancias da criatividade, da inven\u00e7\u00e3o, da cr\u00edtica. A vida humana \u00e9 isso, \u00e9 aquilo que existe como um milagre permanente, e a universidade tem um papel decisivo ao nos lembrar disso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como isso se d\u00e1?<\/strong><br>A universidade \u00e9 um dos espa\u00e7os, um dos poucos espa\u00e7os que n\u00e3o est\u00e3o&nbsp;submetidos ao mercado&nbsp;e, portanto, podem&nbsp;resistir a ele. A universidade \u00e9, ou deveria ser, imune a modismos. A tradi\u00e7\u00e3o da universidade \u00e9 de rep\u00fadio a esses fetichismos imediatistas. Adorno dizia que, em certos momentos, mesmo sem saber muito bem para onde ir, \u00e9 preciso resistir e contraditar. Nossos projetos estrat\u00e9gicos, nossa capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o est\u00e3o muito enfraquecidos. Estamos dispersos, desmobilizados. O momento \u00e9 dif\u00edcil, mas \u00e9&nbsp;como disse Murilo Mendes: \u201cAinda n\u00e3o estamos habituados com&nbsp;o mundo. Nascer \u00e9 muito comprido.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"featured_media":17852,"template":"","class_list":["post-17851","news","type-news","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-test\/wp-json\/wp\/v2\/news\/17851","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-test\/wp-json\/wp\/v2\/news"}],"about":[{"href":"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-test\/wp-json\/wp\/v2\/types\/news"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-test\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17852"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-test\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17851"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}