{"id":5260,"date":"2025-01-29T16:20:00","date_gmt":"2025-01-29T19:20:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufmg.br\/\/?post_type=news&#038;p=5260"},"modified":"2025-12-06T09:57:19","modified_gmt":"2025-12-06T12:57:19","slug":"opiniao-ze-ou-nossos-herois-tambem-erraram","status":"publish","type":"news","link":"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-test\/comunicacao\/noticias\/opiniao\/opiniao-ze-ou-nossos-herois-tambem-erraram\/","title":{"rendered":"\u2018Z\u00e9\u2019, ou nossos her\u00f3is tamb\u00e9m erraram"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo o \u00faltimo censo, cerca de 40% da popula\u00e7\u00e3o brasileira nasceu antes de 1985, quando um acordo no Congresso Nacional elegeu Tancredo Neves, encerrando o mais recente per\u00edodo de presidentes generais escolhidos pelos militares. A maioria dos brasileiros, portanto, nasceu depois que a ditadura terminou. Por isso, aumenta a import\u00e2ncia das a\u00e7\u00f5es de promo\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria daquele triste per\u00edodo. Por outro lado, o tempo tamb\u00e9m deveria trazer&nbsp;um distanciamento para avaliar erros e acertos da gera\u00e7\u00e3o que combateu a ditadura. Essa \u00e9 justamente uma das maiores qualidades do&nbsp;<a href=\"https:\/\/ufmg.br\/comunicacao\/noticias\/ze-filme-dirigido-pelo-professor-rafael-conde-estreia-em-belo-horizonte\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">filme&nbsp;<em>Z\u00e9<\/em>, dirigido por Rafael Conde, professor da Escola de Belas Artes da UFMG, e&nbsp;lan\u00e7ado em 2024, por ocasi\u00e3o dos 60 anos do golpe de 1964<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O filme \u00e9 inspirado na vida de Jos\u00e9 Carlos Novaes da Mata Machado, um dos estudantes expulsos da UFMG, onde estudava Direito, por for\u00e7a do Decreto 477,&nbsp;conhecido como o AI-5 da educa\u00e7\u00e3o. Jos\u00e9 Carlos, que \u00e9&nbsp;interpretado por Caio Horowicz, veio a se tornar um dos principais l\u00edderes da A\u00e7\u00e3o Popular Marxista-Leninista (APML), uma das organiza\u00e7\u00f5es de esquerda que partiram para a luta armada contra a ditadura. Jos\u00e9 Carlos foi preso v\u00e1rias vezes por seu ativismo pol\u00edtico e passou anos vivendo na clandestinidade com sua companheira, Maria Madalena Prata Soares, no filme interpretada por Eduarda Fernandes. Foi capturado em S\u00e3o Paulo, torturado e morto em 28 de outubro de 1973, por agentes do DOI-Codi&nbsp;em Recife.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dos&nbsp;<a href=\"https:\/\/ufmg.br\/comunicacao\/noticias\/monumento-que-homenageia-estudantes-mortos-pela-ditadura-e-revitalizado\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">quatro ex-estudantes da UFMG mortos pela ditadura<\/a>, Jos\u00e9 Carlos foi o \u00fanico enterrado pela fam\u00edlia. Os outros tr\u00eas nunca foram encontrados \u2013&nbsp;Gildo Lacerda, que estudou na Face, Walkiria Afonso Costa, estudante da FaE, e Idal\u00edsio Soares Aranha Filho, discente&nbsp;de Psicologia. Esses continuam na lista de 152 pessoas desaparecidas e somam-se \u00e0s 219 oficialmente mortas pelos \u00f3rg\u00e3os do Estado entre 1964 e 1985, conforme apurado pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal. O corpo de Z\u00e9 Carlos foi devolvido \u00e0 fam\u00edlia, em grande parte, sem d\u00favida, em raz\u00e3o de quem era&nbsp;seu pai, o jurista e professor&nbsp;Edgard de Godoi da Mata Machado. Ele&nbsp;lecionou Teoria Geral do Direito na Faculdade de Direito da UFMG e foi deputado federal pelo MDB at\u00e9 a promulga\u00e7\u00e3o do AI-5, que cassou seu mandato parlamentar e o afastou da doc\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><em>A perspectiva hegem\u00f4nica, dos &#8220;nossos her\u00f3is&#8221;, n\u00e3o deixa lugar para as d\u00favidas e desacertos de uma mo\u00e7ada que apanhou muito e terminou massacrada pelo regime.<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O filme retrata a luta de Jos\u00e9 Carlos no movimento estudantil e busca transportar os espectadores de volta ao per\u00edodo sombrio da ditadura militar brasileira, entre 1964 e 1985. Mas engana-se quem esperava mais um filme militante. Ele apresenta uma vis\u00e3o sens\u00edvel, intimista e, sobretudo, adota uma forma muito delicada \u2013&nbsp;por meio da perspectiva um pouco&nbsp;<em>na\u00efve<\/em>&nbsp;do protagonista \u2013 para abordar&nbsp;um tema que ainda considero tabu nesse debate: o fracasso da esquerda que pregava a luta armada. A perspectiva hegem\u00f4nica, dos &#8220;nossos her\u00f3is&#8221;, n\u00e3o deixa lugar para as d\u00favidas e desacertos de uma mo\u00e7ada que apanhou muito e terminou massacrada pelo regime.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O uso de planos fechados e closes imprimiu ao filme um intimismo, uma vis\u00e3o &#8220;de dentro&#8221; e, at\u00e9 mesmo, um sentimento de claustrofobia, muito de acordo com o roteiro, que tematizou abertamente as discuss\u00f5es do casal sobre continuar ou n\u00e3o com os companheiros que a repress\u00e3o vinha desarticulando \u2013 \u00e0s vezes, literalmente. E de como isso foi sofrido no dia a dia da clandestinidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Certamente, planos fechados possibilitam menor custo de produ\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que diminuem a necessidade de reconstruir a cidade de uma \u00e9poca passada, com transeuntes caracterizados, casas, lojas com letreiros e pe\u00e7as publicit\u00e1rias, autom\u00f3veis, orelh\u00f5es. N\u00e3o saberia dizer se a produ\u00e7\u00e3o foi adequada \u00e0 dramaticidade dos planos ou vice-versa. Fato \u00e9 que, para al\u00e9m da dramaturgia, o filme \u00e9 plasticamente muito cuidadoso, por exemplo, quando&nbsp;nos enquadramentos, homenageia&nbsp;os filmes construtivistas e destaca&nbsp;a arquitetura brutalista do per\u00edodo. Na cena em que Madalena est\u00e1 na delegacia, sendo interrogada na presen\u00e7a de seu filho menor, o \u00e2ngulo e enquadramento n\u00e3o mostram os rostos ou \u2013 heresia das heresias \u2013 corta as cabe\u00e7as dos meganhas contra uma acusada vista de frente. Assim, me lembrou iconicamente a famosa foto do IPM em que os &#8220;ju\u00edzes&#8221; aparecem com o rosto baixo ou coberto pelas m\u00e3os, em contraste com a guerrilheira Dilma Rousseff, altiva no banco dos r\u00e9us.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Curiosamente, o tom intimista foi escolhido tamb\u00e9m para o filme da hora,&nbsp;<em>Ainda estou aqui<\/em>, de Walter Salles, indicado ao Oscar de Melhor Filme. Infelizmente, dentre as escolhas que teve de fazer, o filme n\u00e3o tematiza se foi um erro a conduta do ex-deputado Rubens Paiva de se envolver com a resist\u00eancia \u00e0 ditadura quando tinha cinco filhos para criar. Essa \u00e9 uma das (muitas e ricas) reflex\u00f5es do livro hom\u00f4nimo de Marcelo Rubens Paiva, lan\u00e7ado dez anos antes pela Editora Alfaguara e que serviu de inspira\u00e7\u00e3o para o&nbsp;filme. \u00c9 uma discuss\u00e3o ainda a ser travada, de prefer\u00eancia antes que os 40% dos brasileiros que viveram sob a ditadura deixem de existir. Afinal, como todo ser humano, nossos her\u00f3is tamb\u00e9m erraram.<\/p>\n","protected":false},"featured_media":5261,"template":"","class_list":["post-5260","news","type-news","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-test\/wp-json\/wp\/v2\/news\/5260","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-test\/wp-json\/wp\/v2\/news"}],"about":[{"href":"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-test\/wp-json\/wp\/v2\/types\/news"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-test\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5261"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-test\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5260"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}