{"id":5340,"date":"2025-07-15T08:34:00","date_gmt":"2025-07-15T11:34:00","guid":{"rendered":"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-test\/?post_type=news&#038;p=5340"},"modified":"2025-09-29T09:16:08","modified_gmt":"2025-09-29T12:16:08","slug":"opiniao-reproducao-humana-em-crise-causas-desconhecidas","status":"publish","type":"news","link":"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-test\/comunicacao\/noticias\/opiniao\/opiniao-reproducao-humana-em-crise-causas-desconhecidas\/","title":{"rendered":"Reprodu\u00e7\u00e3o humana em crise: causas desconhecidas"},"content":{"rendered":"\n<p>As taxas de fecundidade despencaram nas \u00faltimas d\u00e9cadas, deixando a reprodu\u00e7\u00e3o humana abaixo do n\u00edvel de reposi\u00e7\u00e3o (2,1 filhos por casal) em todas as regi\u00f5es industrializadas do planeta. Em conson\u00e2ncia com a tradi\u00e7\u00e3o da pesquisa demogr\u00e1fica, o decl\u00ednio nas taxas de fecundidade tem sido vista como&nbsp;reflexo de uma transi\u00e7\u00e3o cultural associada \u00e0s mudan\u00e7as sociais e econ\u00f4micas dos tempos modernos. No entanto, essa teoria n\u00e3o forneceu evid\u00eancias concretas que ligassem fatores socioecon\u00f4micos espec\u00edficos ao decl\u00ednio nas taxas de fecundidade. Outras hip\u00f3teses que sugerem que a menor fecundidade (a capacidade biol\u00f3gica de se reproduzir) poderia contribuir para taxas de fecundidade mais baixas t\u00eam sido tipicamente ignoradas na pesquisa demogr\u00e1fica.<\/p>\n\n\n\n<p>Os governos frequentemente respondem \u00e0s propostas de estudos demogr\u00e1ficos para aumentar as taxas de fertilidade oferecendo os chamados b\u00f4nus especiais por nascimento de beb\u00eas. Esses programas, por\u00e9m,&nbsp;n\u00e3o resultam em taxas de natalidade mais altas. E a r\u00e1pida diminui\u00e7\u00e3o do n\u00famero de crian\u00e7as e jovens j\u00e1 est\u00e1 remodelando as sociedades. Assim, n\u00e3o devemos restringir nossa busca pelas causas das baixas taxas de natalidade ao estudo apenas de hip\u00f3teses socioecon\u00f4micas. Quest\u00f5es biol\u00f3gicas importantes ainda precisam ser respondidas. Por exemplo: por que a demanda por reprodu\u00e7\u00e3o assistida (RA) est\u00e1 aumentando em todo o mundo, independentemente de geografia, status social, local de trabalho, religi\u00e3o e sistemas pol\u00edticos? Por que a taxa abrangente de gravidez n\u00e3o assistida (incluindo a taxa de abortos legais induzidos) vem diminuindo? Qual o papel da redu\u00e7\u00e3o da qualidade do s\u00eamen relatada em todas as regi\u00f5es do mundo? As subst\u00e2ncias qu\u00edmicas (como os desreguladores end\u00f3crinos) que detectamos em nossos \u00f3rg\u00e3os devido \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 contamina\u00e7\u00e3o por alimentos, ambiente interno e polui\u00e7\u00e3o do ar desempenham algum papel?<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>A r\u00e1pida diminui\u00e7\u00e3o do n\u00famero de crian\u00e7as e jovens j\u00e1 est\u00e1 remodelando as sociedades.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Embora essas perguntas possam parecer simples, as respostas permanecem obscuras, e a raz\u00e3o para isso \u00e9 inequ\u00edvoca: os grandes estudos de campo necess\u00e1rios com amostras representativas de pessoas da popula\u00e7\u00e3o em geral nunca foram realizados.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de compartilharem um foco de pesquisa comum, dem\u00f3grafos e bi\u00f3logos reprodutivos raramente colaboraram. Suas diferentes perspectivas s\u00e3o evidentes at\u00e9 mesmo em sua compreens\u00e3o do termo fertilidade: para os dem\u00f3grafos, refere-se ao n\u00famero de nascimentos; a \u00e1rea m\u00e9dica, por sua vez,&nbsp;o associa \u00e0 capacidade de reprodu\u00e7\u00e3o (fecundidade).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Como resultado, casais submetidos a tratamento que concebem por meio de fecundidade reprodutiva (RA) seriam, num contexto demogr\u00e1fico, provavelmente classificados como f\u00e9rteis, mesmo que, ap\u00f3s o tratamento, permane\u00e7am inf\u00e9rteis num sentido m\u00e9dico e biol\u00f3gico. Foi documentado, por exemplo, que mais de 10% de todas as crian\u00e7as na Dinamarca nascem atualmente como resultado de RA. No entanto, a RA permanece ausente das estat\u00edsticas anuais sobre taxas de natalidade. Portanto, cientistas em medicina reprodutiva e sociologia que trabalham com demografia devem colaborar para preencher as lacunas entre suas \u00e1reas de pesquisa e projetar estudos de campo multidisciplinares em larga escala necess\u00e1rios para identificar as causas sociol\u00f3gicas e biol\u00f3gicas por tr\u00e1s da atual crise na reprodu\u00e7\u00e3o humana. Nos pa\u00edses escandinavos, onde pesquisas nessa \u00e1rea encontram-se relativamente bem sedimentados, a comunica\u00e7\u00e3o eletr\u00f4nica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 seguran\u00e7a e \u00e0 privacidade de dados pode facilitar o desenho desse estudo.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Apesar de compartilharem um foco de pesquisa comum, dem\u00f3grafos e bi\u00f3logos reprodutivos raramente colaboraram. Suas diferentes perspectivas s\u00e3o evidentes at\u00e9 mesmo em sua compreens\u00e3o do termo fertilidade: para os dem\u00f3grafos, refere-se ao n\u00famero de nascimentos; a \u00e1rea m\u00e9dica, por sua vez,&nbsp;o associa \u00e0 capacidade de reprodu\u00e7\u00e3o (fecundidade).<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Entre os poss\u00edveis fatores que podem contribuir para o decl\u00ednio nas taxas de fecundidade est\u00e3o os de ordem biol\u00f3gica (decl\u00ednio na contagem de espermatozoides, fal\u00eancia de ov\u00f3citos, principalmente em mulheres com idade mais avan\u00e7ada, aumento da idade paterna e polui\u00e7\u00e3o ambiental), socioecon\u00f4mica (urbaniza\u00e7\u00e3o, atraso na gravidez e instabilidade econ\u00f4mica), os relacionados ao estilo de vida (dieta e nutri\u00e7\u00e3o, tabagismo e consumo de \u00e1lcool e estresse), m\u00e9dica (aumento do uso de tecnologias de reprodu\u00e7\u00e3o assistida, que, apesar de ajudarem na concep\u00e7\u00e3o, preserva\/passa adiante genes relacionados \u00e0 baixa fertilidade, doen\u00e7as cr\u00f4nicas e pandemias).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O decl\u00ednio das taxas de fecundidade tem implica\u00e7\u00f5es significativas para o crescimento populacional, para&nbsp;os sistemas de sa\u00fade e para&nbsp;a economia (aposentadoria e benef\u00edcios previdenci\u00e1rios s\u00e3o alguns exemplos). A taxa de fecundidade no Brasil, que era de cerca de 6 filhos por casal na d\u00e9cada de 1960, tem diminu\u00eddo drasticamente nas \u00faltimas d\u00e9cadas, atingindo, de acordo com o IBGE em 2023,&nbsp;aproximadamente 1,6 filho&nbsp;por casal. Como impactos dessa mudan\u00e7a, podemos citar o envelhecimento da popula\u00e7\u00e3o, desafios para o sistema previdenci\u00e1rio, queda da popula\u00e7\u00e3o economicamente ativa e desacelera\u00e7\u00e3o no crescimento da popula\u00e7\u00e3o. Portanto, n\u00e3o surpreende o fato de&nbsp;que a popula\u00e7\u00e3o estimada do Brasil em 2024 (cerca de 213 milh\u00f5es,&nbsp;de acordo com o IBGE) tenha ficado em torno de 5% abaixo do previsto.<\/p>\n\n\n\n<p>Em sintonia com os aspectos anteriormente mencionados, estudos por n\u00f3s desenvolvidos recentemente na UFMG, e em fase final de elabora\u00e7\u00e3o para publica\u00e7\u00e3o, mostraram que cerca de 20% dos jovens universit\u00e1rios&nbsp;(idade m\u00e9dia de 21 anos) da Regi\u00e3o Metropolitana de Belo Horizonte avaliados apresentavam concentra\u00e7\u00e3o esperm\u00e1tica e n\u00famero total de espermatozoides abaixo dos valores m\u00ednimos recomendados pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS, 2021). Segundo a embriologista Raquel Alvarenga, da cl\u00ednica Cegonha Medicina Reprodutiva de Belo Horizonte (MG), al\u00e9m da queda de fecundidade, a falta de acesso aos tratamentos de reprodu\u00e7\u00e3o assistida agrava ainda mais a situa\u00e7\u00e3o de um n\u00famero crescente de casais que desejam ter filhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Retomando o tema central dessa reflex\u00e3o, se as baixas taxas de natalidade decorrem, em \u00faltima an\u00e1lise, da aus\u00eancia volunt\u00e1ria de filhos, das condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, das incertezas atuais quanto ao futuro ou de qualquer combina\u00e7\u00e3o destes fatores, talvez n\u00e3o dev\u00eassemos nos preocupar, pois tais tend\u00eancias podem mudar com o tempo. No entanto, se o decl\u00ednio das taxas de fecundidade sinaliza uma crise duradoura \u2013 impulsionada por um n\u00famero crescente de jovens com sistemas reprodutivos deficientes devido a, por exemplo, problemas ambientais \u2013, ent\u00e3o uma a\u00e7\u00e3o urgente \u00e9 necess\u00e1ria. \u00c9 hora de nossas autoridades de sa\u00fade e governos responderem. As gera\u00e7\u00f5es futuras dependem disso.<\/p>\n\n\n\n<p><em>[Este artigo \u00e9 uma vers\u00e3o ampliada de coment\u00e1rio publicado na The Lancet (<a href=\"https:\/\/www.thelancet.com\/journals\/lancet\/article\/PIIS0140-6736(25)00736-6\/fulltext\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Volume 405, Edi\u00e7\u00e3o 10495, p.2121-2122, 14 de junho de 2025<\/a>), sob a lideren\u00e7a de Niels E. Skakkebaek, do Departamento de Crescimento e Reprodu\u00e7\u00e3o do Hospital Regional da Universidade de Copenhague, na Dinamarca]&nbsp;&nbsp;<\/em><\/p>\n","protected":false},"featured_media":5343,"template":"","class_list":["post-5340","news","type-news","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-test\/wp-json\/wp\/v2\/news\/5340","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-test\/wp-json\/wp\/v2\/news"}],"about":[{"href":"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-test\/wp-json\/wp\/v2\/types\/news"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-test\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5343"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/150.164.63.212:9000\/portal-novo-test\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5340"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}